Acordamos mais uma vez sem pressa, já sabíamos que o mar estaria pequeno. Isto é uma tremenda falta de sorte aqui no Hawaii, porque entre os meses de novembro e março, não existe lugar no planeta Terra que dê mais onda do que o North Shore de Oahu, exatamente onde estamos. A coisa boa de eu ter muitos dias nesta viagem é que este tipo de coisas não tem me deixado tão preocupado, pois eu sei que as ondas virão. Nestes dias, tenho tentado aproveitar de outras formas, curtir o lugar, as pessoas, apreciar a natureza, que é linda aqui.
O Finha apareceu aqui em casa logo cedo, estamos acordando sempre às 7:30h, e fomos caminhando até Waimea Bay, aqui ao lado, para realizar mais um dia de treinamento. O sol estava brilhando, não havia nuvens no céu e a praia tinha vários banhistas.
Começamos o treinamento correndo ate o canto oposto ao que chegamos, depois caminhamos até um pequeno gramado que existe no caminho para a areia, lá fizemos os abdominais e apoios. O Finha reclamou um pouco porque está com uma costela machucada por um caldo que tomou no último dia de ondas grandes aqui na ilha, ao chocar-se com a prancha. Deixamos o gramado, atravessamos a areia novamente, e mergulhamos no mar. A água é bem clara aqui, e a temperatura muito agradável. Nadamos de uma extremidade à outra da praia e depois voltamos. Saímos do mar, pegamos nossas roupas, tomamos um ducha, e estávamos deixando a praia, isso tudo não durou mais que 15 minutos. Então eu disse:
- Vamos ficar um pouco mais aqui, está um dia bonito. Vamos aproveitar.
- Tá, então vamos sentar nas pedras ali no canto da praia – Disse o Finha.
Sentamos, ficamos lagarteando um pouco no sol, curtindo o visual da famosa baia de Waimea, quando de repente vimos uma movimentação na praia. Muitas pessoas olhavam para dentro do mar, e o salva-vidas falou algo no alto-falantes. Sim, aqui os slava-vidas tem guaritas super estruturadas, até com alto-falantes. Logo em seguida, o quadriciclo do Water Patrol foi até a beira da praia e tirou todo mundo de dentro da água. Só então, ouviu-se de novo:
- Everybody, leave the line up. We`ve seen a shark.
Nós rimos de nervosos, tínhamos acabado de nadar de um lado ao outro da praia e logo em seguida apareceu um tubarão por ali. Não enxergamos nada de onde estávamos, mas foi mais uma emoção da viagem.
Ainda de manhã fomos até Pipeline, ver como estavam as condições, bem fracas, por sinal. Comprei um dvd que conta toda história do Pipeline Master, que iniciou-se me 1970, e fui para casa assistir. Através deste documentário, eu e o Cau ficamos sabendo que várias vezes a histórias do surf foi mudada dentro deste campeonato.
À tarde, fomos mais uma vez ver as ondas, para o lado de Rocky Point, Pipeline, Off the Wall que ficam para o lado leste de nossa casa. Acontece que para o lado oeste também tem boas ondas, as quais só tínhamos visto quando fomos ao supermercado. Um amigo nosso, Marco Giorgio, disse que tinha visto boas ondas em Laniakea, que fica para o lado oeste. Voltamos para casa um pouco tarde para o surf, eram quase 17h, aqui anoitece lá pelas 18:30h. De qualquer forma, achamos que seria rápido chegar em Laniakea. A primeira dificuldade foi o fato de a bike lane acabar bem na frente da nossa casa. Tínhamos que ir no acostamento, com o carros passando bem rápido ao nosso lado, fazendo as pranchas moverem-se com força, sob nossos braços. Assim que vimos a primeira ondas, são várias, uma ao lado da outra, paramos para olhar, mas estava tão pequeno que resolvemos continuar pedalando. Encontramos um outro reef, e neste conseguimos a informação de que a onda que queríamos surfar estava há mais 10 minutos de bike dali. Talvez mais de dez minutos se passaram quando paramos em uma pequena prainha, onde haviam alguns surfistas, mas onda lamentáveis. Aquilo desanimou um pouco, porque já estava anoitecendo. Olhando para o lado esquerdo, via-se uma outra onda, maior, com mais gente. Perguntamos para um surfista e ele confirmou que lá, sim, era Laniakea. Pegamos de novo a estrada e chegamos quando o sol já havia se escondido por trás de grandes montanhas do lado oeste da costa. Pulamos na água o mais rápido possível e remamos com toda nossa vontade, para aproximarmo-nos o quanto antes daquelas ondas.
Ao chegar lá fora, vi um surfista pegar um onda linda, fazendo manobras bonitas de serem apreciadas. Abri um grande sorriso no rosto, olhei para trás, mas o Cau havia sido pego por uma onda, e estava longe do meu alcance visual, ele demorou um mais para chegar ao line up. Logo depois que eu estava lá fora, entrou um boa onda para mim, como se tivesse sido encomendada. Remei nela, fiquei em pé, senti a força deste oceano sob mim, pois rapidamente atingi um boa velocidade. Fui até a base da onda, fiz uma curva que me projetou para cima, apenas passei velozmente pela sessão seguinte, descendo com ainda mais rapidez, e virei novamente na base da onda, deixei que a prancha flutuasse com a máxima velocidade, abri um pouco os braços e fiz um grande arco, cortando a água com suavidade e fluidez, apenas com o movimento do corpo. Virei-me, então, para o lado oposto ao qual vinha, estava indo contra a espuma. Apenas pisei na rabeta e deixei que o fundo da prancha batesse contra a onda, completando, assim, uma clássica manobra do surf, o round-house cut back. Naquela hora, esqueci de tudo, das minhas costas, do joeho, da pedalada sem fim, do vento, que eu sabia que soprava na direção contrária à nós no retorno para casa, do cansaço, até da CPMF, que a Nai tinha me dito que iria ser substituída por um outro imposto, e aquilo veio martelando minha cabeça por todo trajeto até ali, Porque permitimos este tipo de coisa no nosso país? Que palhaçada que fazem com nosso dinheiro! Foi um momento marcante, muito bom de se viver. Desses que fazem valer a pena todos os esforços que empenhamos para surfar ondas perfeitas.
Ainda rolaram outras ondas, vi o Cau pegando uma das boa, mas a cada série escurecia, e enxergávamos menos. Saímos do mar em seguida, e a pedalada de volta foi bem pesada, as coxas sofreram na briga contra o vento, mas pareceu-me mais rápido. A ansiedade de chegar sempre acaba tornando os caminhos mais longos.
Em casa o Julião já nos esperava ansioso pelo jantar, fizemos uma salada do livro do Oliver, de batata com abacate, complementada com arroz. O Finha ainda apareceu por aqui para nos arrastar para a balada, mas ninguém tinha condições, eu mesmo dormi na sala, na frente da televisão.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
15/12 - Dia de treinamento
Acordei diversas vezes durante a noite, com bastante dor no joelho, eu sentia que ele estava ficando inchado, mas, ao mesmo tempo, não estava com problema para caminhar, o que parecia ser bom.
Pela manhã tomamos um café-da-manhã leve e, como não tinha onda, falei para o Júlio e o Cauê para fazermos uma preparação física com abdominais, apoios e natação. Eles gostaram da idéia e acabamos fazendo os exercícios na sala mesmo. Foi engraç
ado por que cada um que
fazia sofria e suava mais que o outro. Acabada esta parte, saímos correndo, atravessamos a rua e fomos direto para dentro do mar. A praia aqui na frente de casa chama-se Three Tables, porque existem três formações rochosas que se projetam para fora da água, parecendo mesas. Nadamos de um lado à outro da pequena baia e saímos do mar. O sol brilhava e a temperatura estava muito agradável. Por isso, ficamos ainda um tempo na beira da praia.
À tarde, pegamos uma carona com o Julião e fomos para uma surf shop, eu queria comprar uma vest, ou jaquet, como chama aqui. É como um camiseta de manga comprida, mas feita de neoprene, para proteger do vento, ou dos corais, como no meu caso. Entramos numa loja bem famosa daqui, chamada Surf n` Sea, ficamos vendo as roupas de borracha, que são bem mais baratas por aqui. Depois fomos para outra sessão da loja e ficamos lá umas duas horas experimentando milhares de calções, camisetas, bonés e tudo mais que víamos pela frente. A menina que nos atendeu chamava-se Wrenna e já tinha ido ao Brasil aprender a cantar Bossa Nova, ela até cantou um pedaço de Garota de Ipanema, foi bem curioso. Ao final de tudo, de para mim mesmo de presente de Natal, algumas coisas, quase esquecendo da roupa de vim comprar para proteger minhas costas do sol.
Chegamos em casa e o Júlio estava no esperando para comer. Fui para cozinha, pois todos aqui acham que sou um ótimo cozinheiro (rsrsrs), preparei um molho de tomate que a Nai me ensinou, com os tomates cortados em quatro e retirando a pele, assim que cozinham. Um coisa ruim é o preço das verduras e frutas, comprar 6 tomates, gastamos U$10,00. O Júlio ficou acompanhando tudo e lá pelas tantas questionou:
- Pô, mas você colocou água neste molho?
- Não, claro que não.
- Não? Mas de onde vem toda esta água ai?
- Vem do próprio tomate.
- Ah, é!? Só com tomate sai tudo isso de molho? Entendi. Então, seis tomates e meia cebola já fica assim?
- Sim, é muito fácil.
- É que sou eu quem cozinho para o meu filho, e preciso aprender.
Depois coloquei um pouco de creme de leite, mas senti falta de umas alcaparras ou azeitonas, para ficar mais parecido com delicioso molho À Marinara, do Atelier de Massas. Acabou ficando bom:
- Ficou bom, hein, professor! – Disse Julião, com sua calma característica.
Pela manhã tomamos um café-da-manhã leve e, como não tinha onda, falei para o Júlio e o Cauê para fazermos uma preparação física com abdominais, apoios e natação. Eles gostaram da idéia e acabamos fazendo os exercícios na sala mesmo. Foi engraç
ado por que cada um que
fazia sofria e suava mais que o outro. Acabada esta parte, saímos correndo, atravessamos a rua e fomos direto para dentro do mar. A praia aqui na frente de casa chama-se Three Tables, porque existem três formações rochosas que se projetam para fora da água, parecendo mesas. Nadamos de um lado à outro da pequena baia e saímos do mar. O sol brilhava e a temperatura estava muito agradável. Por isso, ficamos ainda um tempo na beira da praia.À tarde, pegamos uma carona com o Julião e fomos para uma surf shop, eu queria comprar uma vest, ou jaquet, como chama aqui. É como um camiseta de manga comprida, mas feita de neoprene, para proteger do vento, ou dos corais, como no meu caso. Entramos numa loja bem famosa daqui, chamada Surf n` Sea, ficamos vendo as roupas de borracha, que são bem mais baratas por aqui. Depois fomos para outra sessão da loja e ficamos lá umas duas horas experimentando milhares de calções, camisetas, bonés e tudo mais que víamos pela frente. A menina que nos atendeu chamava-se Wrenna e já tinha ido ao Brasil aprender a cantar Bossa Nova, ela até cantou um pedaço de Garota de Ipanema, foi bem curioso. Ao final de tudo, de para mim mesmo de presente de Natal, algumas coisas, quase esquecendo da roupa de vim comprar para proteger minhas costas do sol.
Chegamos em casa e o Júlio estava no esperando para comer. Fui para cozinha, pois todos aqui acham que sou um ótimo cozinheiro (rsrsrs), preparei um molho de tomate que a Nai me ensinou, com os tomates cortados em quatro e retirando a pele, assim que cozinham. Um coisa ruim é o preço das verduras e frutas, comprar 6 tomates, gastamos U$10,00. O Júlio ficou acompanhando tudo e lá pelas tantas questionou:
- Pô, mas você colocou água neste molho?
- Não, claro que não.
- Não? Mas de onde vem toda esta água ai?
- Vem do próprio tomate.
- Ah, é!? Só com tomate sai tudo isso de molho? Entendi. Então, seis tomates e meia cebola já fica assim?
- Sim, é muito fácil.
- É que sou eu quem cozinho para o meu filho, e preciso aprender.
Depois coloquei um pouco de creme de leite, mas senti falta de umas alcaparras ou azeitonas, para ficar mais parecido com delicioso molho À Marinara, do Atelier de Massas. Acabou ficando bom:
- Ficou bom, hein, professor! – Disse Julião, com sua calma característica.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
14/12 - Lição de humildade
Acordei próximo das 6 da manhã, estava escuro e não parava de ventar e chover. Aqui no Hawaii é impressionante a quantidade de vezes que chove e abre o sol no mesmo dia, lembra-me um pouco Noronha. Acho que isto deve-se ao fato de ser uma ilha, o vento sopra, as nuvens deslocam-se a toda hora, e algumas delas trazem chuva.
Logo que acordei iniciei um sádhana, a pratica do SwáSthya Yôga, e o Cauê continuava desmaiado na cama ao lado. A prática durou cerca de uma hora, e nada dele se mexer. Depois ele me contou que acordou comigo respirando forte, estava fazendo bhástrika, e teve um momento em que ele abriu os olhos e deu de cara comigo de cuecas e cabeça para baixo, dei muita risada disso. Depois de praticar, peguei meu computador para ler os e-mails e escrever um pouco, como ventava e chovia muito, achei que o campeonato não aconteceria. Só quando já eram quase 8 horas, é que acessei o site do campeonato. Faltavam poucos minutos para as baterias irem para a água. Mais um vez tive que acordar o Cauê no susto, e com pressa:
- Vamos embora, Cau. Vai rolar o campeonato e o Kelly Slater está na primeira bateria.
E mais uma vez, saímos de casa, cheios de pressa e expectativa. Claro que até o Cauê acordar, fazer sua higiene pessoal, comer alguma coisa, a bateria já tinha acabado. De qualquer forma, pedi a bicicleta da Jennifer, uma curitibana que mora na casa, emprestada, com o argumento que só iríamos ver uma bateria. Assim, fomos com duas bikes, pedalando rápido para ver nosso ídolo. Chegamos na praia e encontramos com o Tony Fleury. Ficamos do lado dele, vendo-o trabalhar enquanto registrava as melhores ondas, e conversando. Mesmo não estando com condições ideais, os melhores surfistas do mundo desempenharam muito bem, dando um verdadeiro show. Ficamos ali quase até o final do evento daquele dia, e fomos para casa para pegar comer alguma coisa, pegar as pranchas e surfar.
Chegando em casa o Júlio estava em casa, e dei a idéia de irmos nos supermercado, que fica na town, longe de casa. Disse a ele que tinha um livro de receitas, que o Dinar me emprestou, e que sabia cozinhar, ele ficou empolgado e topou. No caminho até lá, conhecemos um pouco mais da história do Julião. Este paulista de Santos, era surfista profissional no Brasil e veio pra Oahu há 17 anos, fazer um curso numa das diversas faculdades da ilha. N
unca mais voltou a morar no Brasil, conheceu um californiana e está casado com ela até hoje. Mostrou-nos, já na volta, até o lugar onde mora com ela e seu filho, de 1 ano. O supermercado é gigante, parece um Makro, só que maior e todo mundo pode ir. Você encontra de tudo lá dentro, acho que até carro deve ter pra vender. Fiquei muito indignado ao ver uma centrífuga de sucos por U$100,00, quando paguei mais de R$1000,00 na minha, lá no Brasil. Compramos apenas o básico para e voltamos felizes por não precisar mais comprar no FoodLand, mercado que tem aqui do lado de casa, só que com preços mais altos, e que o Cauê insiste em chamar de SuperFoods, barraquinha de açaí do nosso lendário amigo Paulão.
Largamos a comida em casa, vestimos os calções de surf , pegamos as pranchas e as bicicletas e fomos em direção à Rocky Point. Enquanto pedalávamos pela bikes lane, o Cauê ia na minha frente, carregando sua prancha, que, às vezes, deslocava-se desgovernada para os lado, as plantas cobriam-nos, por vezes o sol iluminava o caminho, e o vento soprava em meu corpo todo. Aquilo produziu uma alegria enorme em mim, uma felicidade pura e inocente, uma liberdade de criança apossavasse de meu corpo, fazendo-me todo sorrir. Era como, quando pequenos, os meninos felizes, ao domingos, pegavam suas bolas de futebol e corriam para o campo mais próximo. O que eu via e vivia naquele momento era meu sonho de menino, eu fui menino por todo o trajeto, e
nada podia ser mais agradável.
Chegamos na praia na maior empolgação, as ondas estavam pequenas, com 1 a 2 pés, vimos o Tony registrando o surf de alguns profissionais que estavam na água, e entramos no mar por cima do coral. Já caia a tarde à nossa esquerda, o sol refletia uma cor rosada em todo céu, levemente nublado. Vi boas ondas sendo surfadas, conversei com o surfista gaúcho Rodrigo Pedra Dornelles, e inclusive deixei uma boa onda para ele, talvez a melhor que vi entrar. Lembrei do Ado, que jamais esperaria uma atitude dessas de mim, mas é que “estamos no Hawaii”! Depois de pegar algumas ondas, entrou uma direita um pouco menor para mim. Remei nela, e ao invés de acelerar para manobrar lá na frente, segurei um pouco, pesando o corpo sobre o pé detrás da prancha, e entrei em um tubo. Surfei-o sem erro, porém, quando estava saindo dele, vi que a onda entrou numa parte mais rasa da bancada, impedindo-me de pular para fora dela. Assim que tentei apontar o bico para a areia, para fugir da explosão final da onda, não sei bem de onde, tomei um pancada da onda na cabeça e fui jogado para frente. Ainda pude ver minha prancha batendo na parte rasa do coral, antes de sentir meu joelho tendo o mesmo destino. Instintivamente, virei meu corpo, o que fez com que minhas costas fossem sendo rasadas em cima da rocha, enquanto a onda me carregava por mais alguns metros. Enquanto tudo isso acontecia, fiquei bem preocupado com meu joelho, pois a batida tinha sido feia, e achei que tinha perfurado a minha pele.
Logo que consegui me levantar, olhei para o joelho, e trazendo-o para bem próximo do rosto, pude constatar, com certo alivio, que não tinha sido nada além do choque. Minhas costas também doíam, e tinha certeza de que havia cortes nela. Fui boiando até a beira da praia, sai do mar mancando e todo dolorido. Aproximei-me de um videomaker que estava ali, mostrei-lhe as costas perguntando se estava sangrando. Ele fez uma cara feia, mas disfarçou logo em seguida, dizendo que não era nada de mais. Havia sido apenas um arranhão. Caminhei um pouco mais, mas achei melhor me sentar para recuperar-me emocionalmente do incidente. Aquilo não machucou somente minhas costas e joelhos, eu estava triste, senti-me desastrado, sem-sorte. Enquanto lamentava sozinho, soltando alguns gemidos, um fotógrafo americano perguntou-me o que havia acontecido, novamente mostrei as costas, ele também disfarçou o espanto e disse-me:
- Oh, man, sorry about that.
Achei muito interessante esta forma diferente que eles tem para se expressar, porque se fosse no Brasil diríamos algo como “Nossa, que ruim! Que coisa ruim”, mas aqui, talvez só mais na língua que nos sentimento, eles “sentem muito” por você ter sofrido algo.
Ele perguntou-me onde estava, ofereceu-me uma carona, a qual aceitei de imediato. Nesta hora chegou um amigo dele, um cara que pareceu-me super divertido, fez piadas com ele, e quando viu meu corte nas costas foi o único que não disfarçou o espanto, botou a mão na boca. Aquilo me deixou um pouco preocupado. Disse a eles que não tinha onde deixar minha bicicleta, e talvez fosse melhor ir caminhando, eles recusaram-se a me deixar lá, já tinham um lugar para eu deixar a bicicleta. Quando fui pegar a bicicleta, que estava na areia, encontrei um surfista brasileiro, Thiago Camarão, perguntei se podia deixar a bicicleta com na casa dele, sabia que estava quase na beira de Rocky Point. Ele aceitou e ainda ajudou-me com a magrela. Durante este tempo todo, que não durou mais de dez minutos, não consegui sinalizar para o Cauê que tinha acontecido alguma coisa. Ele viu que eu estava na areia, mas achou que fosse só porque não tinha gostado do mar. Só quando cheguei no carro dos gringos é que pude ver o machucado, havia um corte feio no lado esquerdo das costas, um corte que arrancou a pele, e sangrava bastante. O resto eram dois grandes arranhões, desses que a gente faz no joelho quando cai no chão. Quando estava embarcando, o Cau passou de bike e mostrei para ele minha conquista daquela tarde, foi mais um que não conteve o espanto.
Cheguei em casa bem triste, fui direto para o banho lavar a ferida. Depois liguei para o Finha, que apareceu aqui em casa com uma água oxigenada e um kit primeiros-socorros. Tinha “um remédio milagroso que os caras usam depois das cirurgias para cicatrizações”, na verdade era só iodo. Acontece que o Finha encasquetou na idéia de que, para limpar bem a ferida, tinha que passar limão. Procedimento que eles usam na Indonésia, por se tratar de um coral vivo.
- Porra, brother, ouve o que eu estou te falando. É a melhor coisa que tem, tua acha que eu ia querer o teu mal?
Deixei que ele e o Cau se divertissem enquanto eu tremia de dor com aquele suco escorrendo por minhas costas. Depois passaram o iodo e aquilo me deu um alivio, eu sabia que o corpo já estava trabalhando para melhorá-lo. Lembrei-me da frase do Mestre DeRose no seu cd Reprogramação Emocional, quando ele diz:
- Diga sempre “o meu corpo é um mecanismo difícil de quebrar, mas fácil de consertar”.
Coloquei gelo no joelho e fiquei pensando na minha atitude até aquele momento com relação ao mar. Conclui que, na empolgação de surfar as melhores ondas da minha vida, havia chegado com muita vontade, mas sem humildade para respeitar a força deste oceano. Internamente, disse a mim mesmo que seria mais prudente. Fui dormir sem pressa de acordar no dia seguinte, por sorte as ondas estariam pequenas.
Logo que acordei iniciei um sádhana, a pratica do SwáSthya Yôga, e o Cauê continuava desmaiado na cama ao lado. A prática durou cerca de uma hora, e nada dele se mexer. Depois ele me contou que acordou comigo respirando forte, estava fazendo bhástrika, e teve um momento em que ele abriu os olhos e deu de cara comigo de cuecas e cabeça para baixo, dei muita risada disso. Depois de praticar, peguei meu computador para ler os e-mails e escrever um pouco, como ventava e chovia muito, achei que o campeonato não aconteceria. Só quando já eram quase 8 horas, é que acessei o site do campeonato. Faltavam poucos minutos para as baterias irem para a água. Mais um vez tive que acordar o Cauê no susto, e com pressa:
- Vamos embora, Cau. Vai rolar o campeonato e o Kelly Slater está na primeira bateria.
E mais uma vez, saímos de casa, cheios de pressa e expectativa. Claro que até o Cauê acordar, fazer sua higiene pessoal, comer alguma coisa, a bateria já tinha acabado. De qualquer forma, pedi a bicicleta da Jennifer, uma curitibana que mora na casa, emprestada, com o argumento que só iríamos ver uma bateria. Assim, fomos com duas bikes, pedalando rápido para ver nosso ídolo. Chegamos na praia e encontramos com o Tony Fleury. Ficamos do lado dele, vendo-o trabalhar enquanto registrava as melhores ondas, e conversando. Mesmo não estando com condições ideais, os melhores surfistas do mundo desempenharam muito bem, dando um verdadeiro show. Ficamos ali quase até o final do evento daquele dia, e fomos para casa para pegar comer alguma coisa, pegar as pranchas e surfar.
Chegando em casa o Júlio estava em casa, e dei a idéia de irmos nos supermercado, que fica na town, longe de casa. Disse a ele que tinha um livro de receitas, que o Dinar me emprestou, e que sabia cozinhar, ele ficou empolgado e topou. No caminho até lá, conhecemos um pouco mais da história do Julião. Este paulista de Santos, era surfista profissional no Brasil e veio pra Oahu há 17 anos, fazer um curso numa das diversas faculdades da ilha. N
unca mais voltou a morar no Brasil, conheceu um californiana e está casado com ela até hoje. Mostrou-nos, já na volta, até o lugar onde mora com ela e seu filho, de 1 ano. O supermercado é gigante, parece um Makro, só que maior e todo mundo pode ir. Você encontra de tudo lá dentro, acho que até carro deve ter pra vender. Fiquei muito indignado ao ver uma centrífuga de sucos por U$100,00, quando paguei mais de R$1000,00 na minha, lá no Brasil. Compramos apenas o básico para e voltamos felizes por não precisar mais comprar no FoodLand, mercado que tem aqui do lado de casa, só que com preços mais altos, e que o Cauê insiste em chamar de SuperFoods, barraquinha de açaí do nosso lendário amigo Paulão.Largamos a comida em casa, vestimos os calções de surf , pegamos as pranchas e as bicicletas e fomos em direção à Rocky Point. Enquanto pedalávamos pela bikes lane, o Cauê ia na minha frente, carregando sua prancha, que, às vezes, deslocava-se desgovernada para os lado, as plantas cobriam-nos, por vezes o sol iluminava o caminho, e o vento soprava em meu corpo todo. Aquilo produziu uma alegria enorme em mim, uma felicidade pura e inocente, uma liberdade de criança apossavasse de meu corpo, fazendo-me todo sorrir. Era como, quando pequenos, os meninos felizes, ao domingos, pegavam suas bolas de futebol e corriam para o campo mais próximo. O que eu via e vivia naquele momento era meu sonho de menino, eu fui menino por todo o trajeto, e
nada podia ser mais agradável.Chegamos na praia na maior empolgação, as ondas estavam pequenas, com 1 a 2 pés, vimos o Tony registrando o surf de alguns profissionais que estavam na água, e entramos no mar por cima do coral. Já caia a tarde à nossa esquerda, o sol refletia uma cor rosada em todo céu, levemente nublado. Vi boas ondas sendo surfadas, conversei com o surfista gaúcho Rodrigo Pedra Dornelles, e inclusive deixei uma boa onda para ele, talvez a melhor que vi entrar. Lembrei do Ado, que jamais esperaria uma atitude dessas de mim, mas é que “estamos no Hawaii”! Depois de pegar algumas ondas, entrou uma direita um pouco menor para mim. Remei nela, e ao invés de acelerar para manobrar lá na frente, segurei um pouco, pesando o corpo sobre o pé detrás da prancha, e entrei em um tubo. Surfei-o sem erro, porém, quando estava saindo dele, vi que a onda entrou numa parte mais rasa da bancada, impedindo-me de pular para fora dela. Assim que tentei apontar o bico para a areia, para fugir da explosão final da onda, não sei bem de onde, tomei um pancada da onda na cabeça e fui jogado para frente. Ainda pude ver minha prancha batendo na parte rasa do coral, antes de sentir meu joelho tendo o mesmo destino. Instintivamente, virei meu corpo, o que fez com que minhas costas fossem sendo rasadas em cima da rocha, enquanto a onda me carregava por mais alguns metros. Enquanto tudo isso acontecia, fiquei bem preocupado com meu joelho, pois a batida tinha sido feia, e achei que tinha perfurado a minha pele.
Logo que consegui me levantar, olhei para o joelho, e trazendo-o para bem próximo do rosto, pude constatar, com certo alivio, que não tinha sido nada além do choque. Minhas costas também doíam, e tinha certeza de que havia cortes nela. Fui boiando até a beira da praia, sai do mar mancando e todo dolorido. Aproximei-me de um videomaker que estava ali, mostrei-lhe as costas perguntando se estava sangrando. Ele fez uma cara feia, mas disfarçou logo em seguida, dizendo que não era nada de mais. Havia sido apenas um arranhão. Caminhei um pouco mais, mas achei melhor me sentar para recuperar-me emocionalmente do incidente. Aquilo não machucou somente minhas costas e joelhos, eu estava triste, senti-me desastrado, sem-sorte. Enquanto lamentava sozinho, soltando alguns gemidos, um fotógrafo americano perguntou-me o que havia acontecido, novamente mostrei as costas, ele também disfarçou o espanto e disse-me:
- Oh, man, sorry about that.
Achei muito interessante esta forma diferente que eles tem para se expressar, porque se fosse no Brasil diríamos algo como “Nossa, que ruim! Que coisa ruim”, mas aqui, talvez só mais na língua que nos sentimento, eles “sentem muito” por você ter sofrido algo.
Ele perguntou-me onde estava, ofereceu-me uma carona, a qual aceitei de imediato. Nesta hora chegou um amigo dele, um cara que pareceu-me super divertido, fez piadas com ele, e quando viu meu corte nas costas foi o único que não disfarçou o espanto, botou a mão na boca. Aquilo me deixou um pouco preocupado. Disse a eles que não tinha onde deixar minha bicicleta, e talvez fosse melhor ir caminhando, eles recusaram-se a me deixar lá, já tinham um lugar para eu deixar a bicicleta. Quando fui pegar a bicicleta, que estava na areia, encontrei um surfista brasileiro, Thiago Camarão, perguntei se podia deixar a bicicleta com na casa dele, sabia que estava quase na beira de Rocky Point. Ele aceitou e ainda ajudou-me com a magrela. Durante este tempo todo, que não durou mais de dez minutos, não consegui sinalizar para o Cauê que tinha acontecido alguma coisa. Ele viu que eu estava na areia, mas achou que fosse só porque não tinha gostado do mar. Só quando cheguei no carro dos gringos é que pude ver o machucado, havia um corte feio no lado esquerdo das costas, um corte que arrancou a pele, e sangrava bastante. O resto eram dois grandes arranhões, desses que a gente faz no joelho quando cai no chão. Quando estava embarcando, o Cau passou de bike e mostrei para ele minha conquista daquela tarde, foi mais um que não conteve o espanto.
Cheguei em casa bem triste, fui direto para o banho lavar a ferida. Depois liguei para o Finha, que apareceu aqui em casa com uma água oxigenada e um kit primeiros-socorros. Tinha “um remédio milagroso que os caras usam depois das cirurgias para cicatrizações”, na verdade era só iodo. Acontece que o Finha encasquetou na idéia de que, para limpar bem a ferida, tinha que passar limão. Procedimento que eles usam na Indonésia, por se tratar de um coral vivo.
- Porra, brother, ouve o que eu estou te falando. É a melhor coisa que tem, tua acha que eu ia querer o teu mal?
Deixei que ele e o Cau se divertissem enquanto eu tremia de dor com aquele suco escorrendo por minhas costas. Depois passaram o iodo e aquilo me deu um alivio, eu sabia que o corpo já estava trabalhando para melhorá-lo. Lembrei-me da frase do Mestre DeRose no seu cd Reprogramação Emocional, quando ele diz:
- Diga sempre “o meu corpo é um mecanismo difícil de quebrar, mas fácil de consertar”.
Coloquei gelo no joelho e fiquei pensando na minha atitude até aquele momento com relação ao mar. Conclui que, na empolgação de surfar as melhores ondas da minha vida, havia chegado com muita vontade, mas sem humildade para respeitar a força deste oceano. Internamente, disse a mim mesmo que seria mais prudente. Fui dormir sem pressa de acordar no dia seguinte, por sorte as ondas estariam pequenas.
domingo, 16 de dezembro de 2007
13/12 - O primeiro dia
Despertei naturalmente às 7:30, e assim que fui até a sala, o Zé Paulo, chefe da equipe da Billabong, marca patrocinadora do evento, e que está na nossa casa, falou que o campeonato já havia começado. Aquilo me causou um alvoroço, entrei no quarto chamando o Cauê, que ainda dormia. Disse-lhe que nem dava tempo de tomarmos café, tínhamos que correr, porque as primeiras baterias do dia seriam muito boas. Apenas engolimos um pão, pegamos uma bicicleta emprestada da casa, o Júlio pegou a outra e partimos em direção à Pipeline. Como só tínhamos uma bicicleta para dois marmanjos, eu fui metade do caminho sentado no quadro, e o Cauê a outra metade. Segundo ele:
- Deve ser uma cena bizarra quando as pessoas olham estes dois gorilas em cima da mesma bike!
Paralela a Kamehameha highway, nome da avenida que fica entre nossa casa e o mar, existe a bike lane, uma estradinha asfaltada onde só passam bicicletas, e ao longo do qual, várias àrvores e flores ficam sobre nossas cabeças. Foi uma sensação de ansiedade com alegria, aguardar pelo momento em que chegaríamos até o campeonato. Um pouco antes de chegarmos, o Júlio se distancio e não o víamos mais. Assim que chegamos na praia pude contemplar a onda que sempre admirei.
As condições não eram as ideais, mas estávamos feliz por qualquer coisa. Como já disse várias vezes, e ainda dirá outras tantas, o Cauê:
- Estamos no Hawaii, cara!
Caminhamos pela praia até a frente do palanque, o campeonato ainda não havia iniciado de fato, havia alguns surfistas treinando, entre eles Occy, uma lenda viva do esporte. Ouvimos o narrados dizendo que o campeonato começaria às 9:30, eram 8:40. Sentamos na frente da Volcom House, antiga casa de Gerry Lopez. Aqui vale a pena falar um pouco desta casa e deste personagem históricos.
Gerry Lopez foi um dos surfistas mais importantes do surf, ele não somente tornou Pipeline a onda mais conhecida do mundo, como fez com que a arte de surfar um tubo fosse ganhasse um valor inestimável dentro do esporte. Este havaiano de Honolulu, liderou a revolução das shortboards no início dos anos 70, quando ditou a forma mais bonita e extrema de surfar tubos em Pipeline. Não é à toa que até hoje é conhecido como o Mr. Pipeline e é um verdadeiro representante do estilo cool under pressure. Ele simplesmente fazia com que a onda mais difícil de ser surfada no mundo, parecesse algo muito fácil, como se apenas cruzasse por dentro de tubos onde cabiam caminhões. Parte desta forma sutil de surfar, também aparecia no seu estilo de viver fora da água, sempre tranqüilo e amigável. Também tornou-se praticante de Yôga, o que deve ter contribuído para aumentar sua consciência corporal e emocional nos momentos críticos. Ele venceu o Pipe Master em 72 e 73, fez algumas outras finais. Tornou-se uma figura tão importante, que durante alguns anos este mesmo campeonato levava seu nome, inclusive por que acontecia em frente à sua casa. Com o aumento da crowd, mudou-se para Maui, uma outra ilha havaiana, onde mora até hoje. Passou a viajar bastante para a Indonésia, em busca de novas ondas, sendo um dos primeiros a surfar em Uluwatu e G-Land.
Pois bem, ao chegar na beira da praia e ver que sua ex-casa fica exatamente na frente de uma das ondas mais incríveis e fotogênicas do planeta, questionei-me sobre o motivo que o levou a vender sua casa para uma gigante da surfwear, a Volcom. A resposta viria logo em seguida.
Ao longo quase toda costa norte de Oahu, onde algumas das melhores ondas do planeta, existem casas à beira-mar. Então, quando você vem pela rodovia ou pela bikes lane, e quer entrar na praia, tem que achar algum dos pequenos becos que o levam até a areia. Pois bem, na entrada de Pipeline, antes de chegar na praia, à sua direita, fica a ex-casa de Gerry Lopez, e à esquerda, a Volcom House. Esta primeira casa da marca, é habitada por vários havaianos, em sua maioria da ilha do Kauai, que se acham donos da onda. Acontece que o astral do caras é tão ruim, que tornou-se muito visível para mim, e para qualquer um que vem até aqui, porque Mr. Pipeline vendeu sua casa para a mesma marca, o que eles consideram uma grande conquista. Ele simplesmente não devia suportar a idéia de ter caras tão idiotas como vizinhos, e que ainda julgavam-se donos da onda que ele tanto ama.
Neste primeiro dia, em especial, dentro da casa só tocava uma música punk-rock e os caras estavam raspando a cabeça de vários surfistas, mais novos, enquanto tomavam cervejas e gritavam bastante. Esta parte foi um pouco triste, mas é preciso conhecer as coisas como são e não ficar iludido numa idéia que criamos em nossas mentes. De qualquer forma, foi bom para ver como as pessoas tem visões diferentes sobre a mesma coisa. Para mim, o surf sempre foi algo silencioso, sutil, para se curtir de maneira plena, e Gerry Lopez é um grande exemplo disso. Na minha visão, este esporte não tem nada a ver como drogas, agressividade ou gritaria, mas parece que nem todo mundo pensa assim.
Bom, continuamos sentados na areia, aguardando o início do evento. As baterias começaram, mas a condição não era a ideal, mesmo assim, vimos bons tubos serem surfados pelos competidores. Saímos dali e fomos para a beira da praia, sentir a onda ainda mais de perto. Uma coisa muito interessante de Pipeline, é que ela quebra muito próxima da areia, isto faz com que você se sinta dentro do tubo, com os surfistas.
Num determinado momento avistei meu amigo e fotógrafo profissional, Tony Fleury, caminhando na areia. Fui lá falar com ele e ficamos trocando uma idéias sobre o novo formato da competição, que mudou justamente neste última etapa do circuito mundial, sobre a condição do mar, que não era das melhores. Depois de algum tempo a fome acabou nos tirando da praia e voltamos para casa, abandonado o campeonato que não estava nos empolgando.
Logo que chegamos o Finha apareceu por lá nos convidando para surfar. Na casa, já estavam Júlio e o Charlie Brown, um surfista de 17 anos que é uma promessa do surf nacional. Arrumamos as coisas e fomos em direção à Rocky Point, que fica quase na frente da casa do Finha.
Estava muito feliz com a primeira sessão de surf no Hawaii. Já fiquei imaginando os tubos, as manobras, sempre utilizando a mentalização que o SwáSthya me ensinou nestes anos todos de prática. Lá da casa do Finha, dava para ver as séries quebrando, o mar parecia estar subindo. Descemos super empolgados até a praia e chegando lá pudemos apreciar bonitas ondas quebrando e bons surfistas na água. Eu já sai correndo pela praia, querendo achar o lugar certo para entrar no mar.
Rocky point é constituída de uma grande laje de coral, sobre a qual quebra a ondulação, produzindo boas e fortes ondas para os dois lados, com tubos e manobras rápidas. Havia 3 a 4 pés de onda, o que é pequeno para os parâmetros havaianos.
Acabamos entrando por uma praia que tem ao lado, para não precisar caminhar pelas pedras. Por ali se pega a onda chamada Rocky left, por ser um esquerda. Na água havia pouca gente, talvez porque todo mundo fica acompanhando o campeonato, e ficamos dando risada sozinhos enquanto esperávamos pelas ondas.
- Caramba, meu, estamos só nós em Rocky Point – Disse aos meus amigos.
Minha primeira onda no Hawaii foi uma esquerda que se formou, e eu estava um pouco atrás do pico dela, então entrei e fui direto para dentro do tubo, infelizmente ela fechou, mas isso acontece mesmo.
Pouco depois, remei mais para as ondas de direita, e encontrei alguns surfistas brasileiros da nova geração. Fiquei pegando onda com eles, porque é sempre bom estar ao lado de quem surfa melhor, para aprender um pouco mais.
Num determinado momento, enquanto eu voltava para o outside, entrou uma onda menor, que alguns surfistas remaram, mas não conseguiram entrar. Como eu estava mais para baixo, apenas virei o bico para a areia e dei algumas braçadas. Eu vi que ira rolar um tubo, então segurei ao máximo a entrada na onda, assim que fiquei em pé, a crista da onda passou por cima de mim, ajustei meu corpo para não tocar em nada, quando eu estava saindo um nova parte da onda quebrou por cima de mim, e eu permaneci intocável dentro daquele pequeno casulo azul, até sair, sorrindo, com velocidade, lá na frente. Comemorei um pouquinho e pulei por cima da onda.
Continuei surfando ao lado dos brasileiros, e pude ver bons tubos surfados por eles. É impressionante como mesmo as ondas pequenas do hawaii proporcionam momentos lindos para quem gosta do surf. Tubos enormes, aéreos altos, manobras fortes, isso que não vi nenhum dos top 44 do mundo ali. Num determinado momento, eu estava voltando para o outside, e uma série de ondas quebrou na minha frente. Enquanto passava por baixo delas, bati com minha quilha no coral e acabei perdendo-a. Só vi isso quando cheguei lá fora, avisei o Cauê e peguei uma onda reto para sair.
Saindo de Rocky Point fomos até a casa do Finha pegar nossas roupas secas e de lá fomos tomar açaí, em uma lojinha onde atendem uns franceses. Pobres franceses, americanos, havaianos e todos os outros que comem aquilo achando que é açaí. Foi nos servido uma pasta rosa, com gosto de morango e nenhuma semelhança com o melhor açaí de Porto Alegre, o do Dinar e do Eder. Deu saudades da Cantina, lembrei dos chapatis, do PF. Ah, como é boa aquela comidinha.
Voltamos para Pipeline, com a esperança de assistir o final do dia de competição, mas as baterias do dia já tinham se encerrado. Fiquei sentando na praia um pouco. Notei que o mar havia crescido desde a manhã, mas estava meio torto, balançado. Não era aquela imagem de perfeição que assistia nos filmes. Por isso, não me deu muita vontade de surfar, alem disso estava sem um quilha e havia me desencontrado do Cauê. Não teria nem prancha, mesmo que quisesse surfar.
Caminhando em direção à Off the Wall, uma onda ao que quebra ao lado de Pipeline/Backdoor, avistei o Cauê que estava olhando as ondas também. Sentando ali, comçamos a ver alguns tubos sendo surfados, apesar do mar estar pesado e as ondas fechando bastante. Perguntei ao Cauê:
- Daí Cau, você vai surfar?
- Bah, Luquinhas, acho que não.
- Pô, então me empresta tua prancha para eu cair.
- Claro.
Peguei a prancha dele, cheio de ansiedade, e fui para dentro do mar. Logo que entrei na água, meus pés sentiram o coral duro, sob os quais caminhei com cuidado. Havia um surfista com cara de havaiano entrando na mesma hora, então fui atrás dele. A entrada no mar foi tranqüila e havia poucas pessoas lá fora. Fiquei olhando as ondas quebrarem, o posicionamento de todos dentro da água, então entrou uma esquerda para mim, desci agarrado na borda da prancha e tentando desacelerar ao máximo meu drop, na tentativa de um tubo. Não deu pra segurar, e a onda não era tão tubular, mas já valeu para pegar confiança e sentir o power do lugar. Na verdade, Off the Wall é conhecida por seu uma onda que quebra para direita, com tubos enormes e poderosos. Achei estranho o fato de algumas ondas estarem quebrando para o lado oposto, depois fui saber que era porque a direção do swell não era ideal. Na realidade, o Finha me disse, vendo as imagens que o Cau fez, que nem era para ter entrado naquele mar. Acabei entrando mais pela empolgação do momento. De qualquer forma, voltei lá pra fora e, depois de algum tempo, peguei outra esquerda, cujo lip quase bateu em mim. Em seguida, uma série enorme despontou no horizonte e todo mundo remou para fora, eu era o único surfista que estava mais para a esquerda no line up, a primeira onda passou vazia e acho que na segunda ou terceira, eu remei com confiança, achado que seria mais uma esquerda, logo que senti que estava dentro da onda, pude ver que ela fecharia inteira. Porém, no Hawaii, depois que você rema, é melhor ir do que tentar puxar o bico, como dizem, porque se você volta atrás a onda te carrega e o caldo é bem pior. Ao menos quando se tentar ir, dá pra completar o drop ou pular lá de cima. Eu, mesmo sabendo que estava entrando em uma fechadeira, continuei remando e fiquei em pé, acontece que sempre acabo imbicando quando vou reto em ondas cavadas, isso porque você precisa pisar bem na rabeta, para levantar o bico. Naquela hora não deu pra fazer nada disso, e tomei um wipe out forte, sendo bem chacoalhado dentro da água. Assim que submergi, pude ver outra onda quebrando me na minha frente, só deu tempo de pegar ar e descer, mais outro sacode lá em baixo. A terceira onda não veio tão forte, mas me segurou um bom tempo debaixo da água, os pránáyámas são muito úteis nesta hora. Na verdade fiquei bem tranqüilo o tempo todo, especialmente porque a praia fica bem próxima, e eu já estava quase na areia. Quando olhei pra beira, vi que só metade de minha prancha estava ali, a outra metade já devia estar lá na praia. Peguei uma espuma e fui rindo de mim mesmo enquanto o oceano me carregava para fora dele.
Caminhei até o Cauê, que dava risada de mim, enquanto registrava tudo na filmadora (depois acabamos gravando algo em cima disso, sem querer). Lamentei principalmente porque a prancha não era minha, nem do Cauê, ele havia pega emprestado do Júlio, porque veio pra cá sem prancha.
Então o saldo final do dia foi: duas sessões de surf, a primeira perdi uma quilha, na segunda, quebrei uma prancha. Rsrsrsrs
Estava bem cansado ao chegar em casa, o Cauê desmaiou no quarto e eu tive que resistir bravamente ao sono, até às 22:00, o que corresponde às 6:00 no Brasil, pois queria ligar para a Nai. Sabia que ela acordaria neste horário para dar aula para minha turma das 7:00h. Eram 22:45 aqui quando dormi na frente do computador, daí abri uns vídeos de surf para tentar manter-me acordado.
Às 5:55 o telefone de Naiana tocou. Ela atendeu com voz de sono, sem entender muito bem quem estaria ligando àquela hora. Assim que notou quem ligava, ficou bem feliz, e venceu a preguiça imediatamente, dizendo-me:
- Não acredito que estou falando contigo!
Aquilo me deu um conforto no coração. A saudade é um rio de lava, que nos queima por dentro, pensei. Conversamos um pouco sobre a vontade de estarmos juntos, dos acontecimentos daquele dia e da viagem, e foi engraçado falar com alguém que vivia com uma noite de antecipação com relação a mim. Lá no Brasil, ela inicia o dia que eu viveria amanhã, depois de meu descanso noturno.
Depois da conversa via skype, deitei-me e adormeci sorrindo, apesar do prejuízo I was living the hawaiian dream.
- Deve ser uma cena bizarra quando as pessoas olham estes dois gorilas em cima da mesma bike!
Paralela a Kamehameha highway, nome da avenida que fica entre nossa casa e o mar, existe a bike lane, uma estradinha asfaltada onde só passam bicicletas, e ao longo do qual, várias àrvores e flores ficam sobre nossas cabeças. Foi uma sensação de ansiedade com alegria, aguardar pelo momento em que chegaríamos até o campeonato. Um pouco antes de chegarmos, o Júlio se distancio e não o víamos mais. Assim que chegamos na praia pude contemplar a onda que sempre admirei.

As condições não eram as ideais, mas estávamos feliz por qualquer coisa. Como já disse várias vezes, e ainda dirá outras tantas, o Cauê:
- Estamos no Hawaii, cara!
Caminhamos pela praia até a frente do palanque, o campeonato ainda não havia iniciado de fato, havia alguns surfistas treinando, entre eles Occy, uma lenda viva do esporte. Ouvimos o narrados dizendo que o campeonato começaria às 9:30, eram 8:40. Sentamos na frente da Volcom House, antiga casa de Gerry Lopez. Aqui vale a pena falar um pouco desta casa e deste personagem históricos.Gerry Lopez foi um dos surfistas mais importantes do surf, ele não somente tornou Pipeline a onda mais conhecida do mundo, como fez com que a arte de surfar um tubo fosse ganhasse um valor inestimável dentro do esporte. Este havaiano de Honolulu, liderou a revolução das shortboards no início dos anos 70, quando ditou a forma mais bonita e extrema de surfar tubos em Pipeline. Não é à toa que até hoje é conhecido como o Mr. Pipeline e é um verdadeiro representante do estilo cool under pressure. Ele simplesmente fazia com que a onda mais difícil de ser surfada no mundo, parecesse algo muito fácil, como se apenas cruzasse por dentro de tubos onde cabiam caminhões. Parte desta forma sutil de surfar, também aparecia no seu estilo de viver fora da água, sempre tranqüilo e amigável. Também tornou-se praticante de Yôga, o que deve ter contribuído para aumentar sua consciência corporal e emocional nos momentos críticos. Ele venceu o Pipe Master em 72 e 73, fez algumas outras finais. Tornou-se uma figura tão importante, que durante alguns anos este mesmo campeonato levava seu nome, inclusive por que acontecia em frente à sua casa. Com o aumento da crowd, mudou-se para Maui, uma outra ilha havaiana, onde mora até hoje. Passou a viajar bastante para a Indonésia, em busca de novas ondas, sendo um dos primeiros a surfar em Uluwatu e G-Land.
Pois bem, ao chegar na beira da praia e ver que sua ex-casa fica exatamente na frente de uma das ondas mais incríveis e fotogênicas do planeta, questionei-me sobre o motivo que o levou a vender sua casa para uma gigante da surfwear, a Volcom. A resposta viria logo em seguida.
Ao longo quase toda costa norte de Oahu, onde algumas das melhores ondas do planeta, existem casas à beira-mar. Então, quando você vem pela rodovia ou pela bikes lane, e quer entrar na praia, tem que achar algum dos pequenos becos que o levam até a areia. Pois bem, na entrada de Pipeline, antes de chegar na praia, à sua direita, fica a ex-casa de Gerry Lopez, e à esquerda, a Volcom House. Esta primeira casa da marca, é habitada por vários havaianos, em sua maioria da ilha do Kauai, que se acham donos da onda. Acontece que o astral do caras é tão ruim, que tornou-se muito visível para mim, e para qualquer um que vem até aqui, porque Mr. Pipeline vendeu sua casa para a mesma marca, o que eles consideram uma grande conquista. Ele simplesmente não devia suportar a idéia de ter caras tão idiotas como vizinhos, e que ainda julgavam-se donos da onda que ele tanto ama.
Neste primeiro dia, em especial, dentro da casa só tocava uma música punk-rock e os caras estavam raspando a cabeça de vários surfistas, mais novos, enquanto tomavam cervejas e gritavam bastante. Esta parte foi um pouco triste, mas é preciso conhecer as coisas como são e não ficar iludido numa idéia que criamos em nossas mentes. De qualquer forma, foi bom para ver como as pessoas tem visões diferentes sobre a mesma coisa. Para mim, o surf sempre foi algo silencioso, sutil, para se curtir de maneira plena, e Gerry Lopez é um grande exemplo disso. Na minha visão, este esporte não tem nada a ver como drogas, agressividade ou gritaria, mas parece que nem todo mundo pensa assim.Bom, continuamos sentados na areia, aguardando o início do evento. As baterias começaram, mas a condição não era a ideal, mesmo assim, vimos bons tubos serem surfados pelos competidores. Saímos dali e fomos para a beira da praia, sentir a onda ainda mais de perto. Uma coisa muito interessante de Pipeline, é que ela quebra muito próxima da areia, isto faz com que você se sinta dentro do tubo, com os surfistas.
Num determinado momento avistei meu amigo e fotógrafo profissional, Tony Fleury, caminhando na areia. Fui lá falar com ele e ficamos trocando uma idéias sobre o novo formato da competição, que mudou justamente neste última etapa do circuito mundial, sobre a condição do mar, que não era das melhores. Depois de algum tempo a fome acabou nos tirando da praia e voltamos para casa, abandonado o campeonato que não estava nos empolgando.
Logo que chegamos o Finha apareceu por lá nos convidando para surfar. Na casa, já estavam Júlio e o Charlie Brown, um surfista de 17 anos que é uma promessa do surf nacional. Arrumamos as coisas e fomos em direção à Rocky Point, que fica quase na frente da casa do Finha.Estava muito feliz com a primeira sessão de surf no Hawaii. Já fiquei imaginando os tubos, as manobras, sempre utilizando a mentalização que o SwáSthya me ensinou nestes anos todos de prática. Lá da casa do Finha, dava para ver as séries quebrando, o mar parecia estar subindo. Descemos super empolgados até a praia e chegando lá pudemos apreciar bonitas ondas quebrando e bons surfistas na água. Eu já sai correndo pela praia, querendo achar o lugar certo para entrar no mar.
Rocky point é constituída de uma grande laje de coral, sobre a qual quebra a ondulação, produzindo boas e fortes ondas para os dois lados, com tubos e manobras rápidas. Havia 3 a 4 pés de onda, o que é pequeno para os parâmetros havaianos.
Acabamos entrando por uma praia que tem ao lado, para não precisar caminhar pelas pedras. Por ali se pega a onda chamada Rocky left, por ser um esquerda. Na água havia pouca gente, talvez porque todo mundo fica acompanhando o campeonato, e ficamos dando risada sozinhos enquanto esperávamos pelas ondas.
- Caramba, meu, estamos só nós em Rocky Point – Disse aos meus amigos.
Minha primeira onda no Hawaii foi uma esquerda que se formou, e eu estava um pouco atrás do pico dela, então entrei e fui direto para dentro do tubo, infelizmente ela fechou, mas isso acontece mesmo.
Pouco depois, remei mais para as ondas de direita, e encontrei alguns surfistas brasileiros da nova geração. Fiquei pegando onda com eles, porque é sempre bom estar ao lado de quem surfa melhor, para aprender um pouco mais.
Num determinado momento, enquanto eu voltava para o outside, entrou uma onda menor, que alguns surfistas remaram, mas não conseguiram entrar. Como eu estava mais para baixo, apenas virei o bico para a areia e dei algumas braçadas. Eu vi que ira rolar um tubo, então segurei ao máximo a entrada na onda, assim que fiquei em pé, a crista da onda passou por cima de mim, ajustei meu corpo para não tocar em nada, quando eu estava saindo um nova parte da onda quebrou por cima de mim, e eu permaneci intocável dentro daquele pequeno casulo azul, até sair, sorrindo, com velocidade, lá na frente. Comemorei um pouquinho e pulei por cima da onda.
Continuei surfando ao lado dos brasileiros, e pude ver bons tubos surfados por eles. É impressionante como mesmo as ondas pequenas do hawaii proporcionam momentos lindos para quem gosta do surf. Tubos enormes, aéreos altos, manobras fortes, isso que não vi nenhum dos top 44 do mundo ali. Num determinado momento, eu estava voltando para o outside, e uma série de ondas quebrou na minha frente. Enquanto passava por baixo delas, bati com minha quilha no coral e acabei perdendo-a. Só vi isso quando cheguei lá fora, avisei o Cauê e peguei uma onda reto para sair.
Saindo de Rocky Point fomos até a casa do Finha pegar nossas roupas secas e de lá fomos tomar açaí, em uma lojinha onde atendem uns franceses. Pobres franceses, americanos, havaianos e todos os outros que comem aquilo achando que é açaí. Foi nos servido uma pasta rosa, com gosto de morango e nenhuma semelhança com o melhor açaí de Porto Alegre, o do Dinar e do Eder. Deu saudades da Cantina, lembrei dos chapatis, do PF. Ah, como é boa aquela comidinha.
Voltamos para Pipeline, com a esperança de assistir o final do dia de competição, mas as baterias do dia já tinham se encerrado. Fiquei sentando na praia um pouco. Notei que o mar havia crescido desde a manhã, mas estava meio torto, balançado. Não era aquela imagem de perfeição que assistia nos filmes. Por isso, não me deu muita vontade de surfar, alem disso estava sem um quilha e havia me desencontrado do Cauê. Não teria nem prancha, mesmo que quisesse surfar.
Caminhando em direção à Off the Wall, uma onda ao que quebra ao lado de Pipeline/Backdoor, avistei o Cauê que estava olhando as ondas também. Sentando ali, comçamos a ver alguns tubos sendo surfados, apesar do mar estar pesado e as ondas fechando bastante. Perguntei ao Cauê:
- Daí Cau, você vai surfar?
- Bah, Luquinhas, acho que não.
- Pô, então me empresta tua prancha para eu cair.
- Claro.
Peguei a prancha dele, cheio de ansiedade, e fui para dentro do mar. Logo que entrei na água, meus pés sentiram o coral duro, sob os quais caminhei com cuidado. Havia um surfista com cara de havaiano entrando na mesma hora, então fui atrás dele. A entrada no mar foi tranqüila e havia poucas pessoas lá fora. Fiquei olhando as ondas quebrarem, o posicionamento de todos dentro da água, então entrou uma esquerda para mim, desci agarrado na borda da prancha e tentando desacelerar ao máximo meu drop, na tentativa de um tubo. Não deu pra segurar, e a onda não era tão tubular, mas já valeu para pegar confiança e sentir o power do lugar. Na verdade, Off the Wall é conhecida por seu uma onda que quebra para direita, com tubos enormes e poderosos. Achei estranho o fato de algumas ondas estarem quebrando para o lado oposto, depois fui saber que era porque a direção do swell não era ideal. Na realidade, o Finha me disse, vendo as imagens que o Cau fez, que nem era para ter entrado naquele mar. Acabei entrando mais pela empolgação do momento. De qualquer forma, voltei lá pra fora e, depois de algum tempo, peguei outra esquerda, cujo lip quase bateu em mim. Em seguida, uma série enorme despontou no horizonte e todo mundo remou para fora, eu era o único surfista que estava mais para a esquerda no line up, a primeira onda passou vazia e acho que na segunda ou terceira, eu remei com confiança, achado que seria mais uma esquerda, logo que senti que estava dentro da onda, pude ver que ela fecharia inteira. Porém, no Hawaii, depois que você rema, é melhor ir do que tentar puxar o bico, como dizem, porque se você volta atrás a onda te carrega e o caldo é bem pior. Ao menos quando se tentar ir, dá pra completar o drop ou pular lá de cima. Eu, mesmo sabendo que estava entrando em uma fechadeira, continuei remando e fiquei em pé, acontece que sempre acabo imbicando quando vou reto em ondas cavadas, isso porque você precisa pisar bem na rabeta, para levantar o bico. Naquela hora não deu pra fazer nada disso, e tomei um wipe out forte, sendo bem chacoalhado dentro da água. Assim que submergi, pude ver outra onda quebrando me na minha frente, só deu tempo de pegar ar e descer, mais outro sacode lá em baixo. A terceira onda não veio tão forte, mas me segurou um bom tempo debaixo da água, os pránáyámas são muito úteis nesta hora. Na verdade fiquei bem tranqüilo o tempo todo, especialmente porque a praia fica bem próxima, e eu já estava quase na areia. Quando olhei pra beira, vi que só metade de minha prancha estava ali, a outra metade já devia estar lá na praia. Peguei uma espuma e fui rindo de mim mesmo enquanto o oceano me carregava para fora dele.
Caminhei até o Cauê, que dava risada de mim, enquanto registrava tudo na filmadora (depois acabamos gravando algo em cima disso, sem querer). Lamentei principalmente porque a prancha não era minha, nem do Cauê, ele havia pega emprestado do Júlio, porque veio pra cá sem prancha.
Então o saldo final do dia foi: duas sessões de surf, a primeira perdi uma quilha, na segunda, quebrei uma prancha. Rsrsrsrs
Estava bem cansado ao chegar em casa, o Cauê desmaiou no quarto e eu tive que resistir bravamente ao sono, até às 22:00, o que corresponde às 6:00 no Brasil, pois queria ligar para a Nai. Sabia que ela acordaria neste horário para dar aula para minha turma das 7:00h. Eram 22:45 aqui quando dormi na frente do computador, daí abri uns vídeos de surf para tentar manter-me acordado.
Às 5:55 o telefone de Naiana tocou. Ela atendeu com voz de sono, sem entender muito bem quem estaria ligando àquela hora. Assim que notou quem ligava, ficou bem feliz, e venceu a preguiça imediatamente, dizendo-me:
- Não acredito que estou falando contigo!
Aquilo me deu um conforto no coração. A saudade é um rio de lava, que nos queima por dentro, pensei. Conversamos um pouco sobre a vontade de estarmos juntos, dos acontecimentos daquele dia e da viagem, e foi engraçado falar com alguém que vivia com uma noite de antecipação com relação a mim. Lá no Brasil, ela inicia o dia que eu viveria amanhã, depois de meu descanso noturno.
Depois da conversa via skype, deitei-me e adormeci sorrindo, apesar do prejuízo I was living the hawaiian dream.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
Finalmente, a chegada...
No caminho para Los Angeles conheci alguns brasileiros que estavam indo para a Califórnia fazer um intercâmbio de trabalho em Big Bear, numa estação de esqui. Funciona assim, um empregador contrata eles, via agência de turismo, e eles ficam contratados por 3 meses e tem um mês de férias, já que o visto para este tipo de situação dura apenas 4 meses.
Depois conheci o mais engraçado dos que estavam no avião, o Vinícius, um mineiro muito figura, com um sotaque bem forte. Ele, coincidentemente, estava indo para Honolulu, mas de lá partiria para Maui, depois descobrimos que, na verdade, tinha que ir para o Kauai. Contou-me que queria ter ido trabalhar num cassino, como crupiê. Só que para isso, teria que ir um mês antes, para fazer um curso e aprender a lidar com as cartas, os jogos, os pagamentos. Como não tinha como vir mais cedo, a agência propôs que ele fosse para uma estação de esqui:
- Mas aí eu não aceitei este trem. Não gosto de frio, uai. Queria ir pra praia, ver as meninas, pegar um sol. Daí, me mandara para o havaí, mas eu não vou trabalhar no McDonald`s, não gosto daquela comida. Vou ficar só uma semana e depois vou arranjar outra coisa.
Dei muita risada com ele, nas poucas horas que estive ao seu lado. Ele ainda me disse que tinha comprado a passagem até o Kauai só para um dia depois da sua chegada em Oahu e, como não tinha onde ficar, ia fazer uma balada até o amanhecer.
Durante todo o vôo entre Miami e Los Angeles, que durou mais de 5 horas, eu não consegui dormir. Toda vez que fechava os olhos pensava nas ilhas havaianas, nas ondas, em assistir todos meu ídolos surfando ao vivo ondas espetaculares. Aquilo me tirava o sono, nem conseguia ficar sentado muito tempo, ficava caminhando dentro do avião.
Quando chegamos em Los Angeles, eu e o Vinícius fomos comer alguma coisa, pois estávamos famintos. Infelizmente, descobrimos, da pior forma possível, que as companhias aéreas do Estados Unidos não servem comida nos trechos domésticos. Eles até tem algumas besteiras para comer, batata tipo Pringles, uma bolacha gigante e uma barra de chocolate, também gigante (rsrsrs), só que eles cobram por isso. E tanto eu, quanto o Vinícius, saímos de Miami com a barriga vazia, achando que íamos comer dentro do avião. Ou seja, ficamos na batata o tempo todo e chegamos em Los Angeles famintos. Comi um beanburger, um hamburger vegetariano feito de feijão, com um toque apimentado (o restaurante era mexicano), que era uma delícia. Está certo que aquilo gerou uma fermentação ingrata na minha barriga, mas valeu a pena.
Ainda em Los Angeles, liguei para meu irmão, que estava de aniversário. Ele estava um pouco triste por conta de uma ex-namorada, e aquilo me deixou preocupado até o dia seguinte, quando liguei novamente e ele pareceu-me bem mais feliz. Falei com A Clã, o Sandro e a Nai, lá na Unidade. É muito bom lembrar daquela casinha laranja, na Ramiro Barcelos, sempre me traz boas sensações.
De Los Angeles para Honolulu foram mais 5 horas e 40 minutos. Novamente eu não dormi e o tempo parecia querer atrasar ao máximo minha chegada. Toda hora que eu olhava o relógio, parecia que sempre faltavam duas horas e meia para chegar. Neste trecho o Vinícius desmaiou ao lado de uma velhinha e eu continue conversando bastante com a Majira, uma finlandesa que mora em Sorocaba há muitos anos. Ela e seu marido, Vicko, estavam indo fazer um cruzeiro que passa por todas as ilhas havaianas.
O marido dela era uma figura muito peculiar, falava com ela em finlandês e comigo num português de americano. Ele é uma mistura de Roberto Justus com Donald Trump, e quando comentei coma a Majira que ele era parecido com o Roberto Justus (achei melhor não dizer sobre o Donald Trump, ele poderia ficar chateado. Rsrsrs), ela disse:
- Ah, muita gente fala isso, mas ele se acha muito mais parecido com o Burt Lancaster.
Achei engraçado, mas dei muita risada internamente porque o Sandro tem uma história muito engraçada sobre este ator. Depois pergunte a ele.
Ainda neste trecho conheci um australiano, que estava vindo de Nova York e iria conhecer o Hawaii, mas que não surfava.
- Na verdade eu ando de skate.
- Ah, que legal. Você é profissional?
- É, mais ou menos, porque agora eu comecei a cantar, sabe. Então, larguei um pouco o skate.
- Sério?! E o que você canta?
- Jazz.
Daí ficamos conversando bastante sobre jazz, ele me indicou um cantor tão cool quanto Chet Baker, segundo ele. Falei-lhe sobre o João Gilberto, ele até já gravou uma versão de Garota de Ipanema e Corcovado, tudo em inglês, mas estava se esforçando para aprender as versões em inglês. Achei muito esquisito um skatista quase profissional virar cantor de jazz, mas foi interessante.
Quando faltavam uns 20 minutos para a chegada na ilha, eu não conseguia mais nem falar. Ficava rindo sozinho no meu banco, às vezes celebrava com os punhos fechadas, levantava os braços, dava risada, dizia “yes!” bem baixinho. O casal ao meu lado só ria, mas eu já tinha dito para eles que era um sonho antigo.
Foi emocionante ver as luzes da cidade lá embaixo, a cada instante eu estava mais próximo de pisar em Oahu e após a aterrisagem, eu era só sorriso.
Chegando lá desembarquei, peguei minhas pranchas, que já estavam separadas, minha mochila demorou muito para aparecer na esteira, aquilo foi me dando uma aflição porque já comecei a pensar que tinha sido extraviada. Depois, a mala não vinha nunca, e o Vinícius, que estava ao meu lado, não parecia nem um pouco preocupado com o fato de sua mala não aparecer:
- Daqui a pouco ela aparece aí, sô! - A mala dele foi a última a sair da esteira.
Sai do saguão de baggage claim, e fiquei na frente esperando pelo meu grande amigo Finha, que tinha ficado de ir me buscar. Demorou uns 20 minutos e nada dele aparecer. Todos os carros já tinham passado e levado seus amigos e nada do meu brother. Comecei a ficar com raiva da Aninha (rsrsrs), que toda vez que me ouvia flaando e combinando com o Finha sobre a chegada e o encontro no aeroporto, dizia a mesma frase:
- Ah, este Finha vai te deixar esperando. Ele não vai te encontrar.
- Pára, Aninha. – E ela dava risada.
Como estava com duas mochilas, uma mala e um capa enorme de pranchas, não estava muito fácil me locomover dali. Vendo dois caras com capas de pranchas próximos a mim, perguntei se não podiam olhar um pouco minha coisas para que eu entrasse lá no saguão para telefonar. Então, um deles tirou um celular do bolso e ofereceu-me para ligar. Aceitei de imediato, porque a ligação era local. Ele logo percebeu que eu era brasileiro e disse-me que é casado com uma paulista. Este mundo é mesmo muito pequeno, né!? Aqui no hawaii, no meio do aeroporto, o cara que pára do meu lado é casado com uma brasileira...
O Finha atendeu o telefone na minha segunda tentativa e disse-me que estava chegando. Logo ele apareceu, sempre com aquele largo sorriso no rosto. Nos abraçamos bastante, eu estava com saudade deste velho amigo:
- Porra, finalmente o De Nardi veio para o North Shore!
- Claro, meu, te falei que eu vinha. Só demorei um pouco.
À caminho do North Shore, que é considerada a parte rural da ilha, fiquei impressionado com o tamanho da Downtown de Homolulu. Um cidade gigante, uma super infra-estrutura, bem diferente do que eu imaginava. Nos meus sonhos, acho que só pensava nas ondas, não na cidade. Ou, como diriam os havaianos, só pensava na country, not in the town.
Logo que entrei no carro o Finha me disse:
- Magro, estou com doze pranchas aí para vender, você quer alguma?
- Cara, na verdade precisaria de uma, mas não vou ter grana pra isso.
- Que tamanho?
- Ah, uma 6’5” - Pranchas são medidas em pés e polegadas.
- Então você vai ter que comprar uma 6’7” que eu tenho.
- Só que eu não preciso de um 6’7”, preciso de uma 6’5”.
Ele sempre foi assim, negociador, desde os tempo de colégio, quando o conheci. Nunca o vi jogar alguma coisa fora, sempre dava um jeito de vender, trocar, negociar. Se pudesse, até as pilhas do seu inseparável walkman ele vendia pra alguém.
- Cara, mas o Cauê de repente vai querer, ele disse-me que estava vindo sem prancha pra cá.
No caminho, passamos por uma placa que aparece em muitos filmes e revistas de surf, que marca o início de Haleiwa, condado onde estão grande parte das ondas. Aquilo me fez acreditar um pouco mais que estava aqui. Mas adiante, avistei a grande torre que fica na frente da baía de Waimea, outro símbolo clássico do Hawaii. Fomos até o endereço do Júlio, dono da casa onde eu ia hospedar-me, e um dos caras mais calmos com quem já falei no telefone, que fica em Waimea, e assim que estacionamos o carro, o Bruno, outro amigo de longa data, estava saindo pela porta da frente. Ele pareceu bem feliz ao me ver:
- Pô, achei que você não vinha mais hoje. Estávamos aí nos questionando se o Luquinhas chegaria.
Eu tinha combinado com seu irmão, Cauê, de dividirmos o quarto na casa do Júlio. Os brothers Dalfovos, estão morando na Califórnia, e eu vinha mantendo contado com ele via e-mail, msn e skype, apesar de ter caído na sua caixa de mensagens todas as vezes que liguei. Estas tecnologias de hoje, facilitam muito nossas vidas e podemos manter contato com amigos e parentes em qualquer lugar do mundo, basta querer. Bom, a combinação havia dado certo, o Cau estava me esperando e logo me instalei no quartinho. É um beliche, com uma cama no chão, onde o Júlio ia dormir nesta noite, não conseguimos descobrir porque:
- Amanhã vou dormir lá na minha mulher – Disse-nos o dono da casa.
Ainda nesta noite, depois de largar minhas malas, fomos até a casa do Finha ver as tais das pranchas. No caminho ele foi dizendo-me onde estava cada onda, mas entre a avenida e a praia, tem um monte de casa, o que lembrou-me muito a praia da Maresias, então quando ele disse:
- E aqui fica Pipeline...
Perguntei se poderíamos estacionar para eu ver a praia. Havia muita alegria em mim por conhecer este local tão especial. Paramos o carro e caminhamos até a areia. Na real, não deu pra ver nada, mas fiquei feliz de qualquer forma.
Depois de vermos as pranchas, que o Finha apresentou cheio de vontade, o Cauê não pareceu interessado em nenhuma, voltamos para casa. Depois do merecido e demorado banho, ainda fiquei trocando uma idéia com o Júlio antes de dormir. No total foram 30 horas de viagem, desde o momento em que deixei Porto Alegre, sendo que destas dormi cerca de 6, e mais 5 horas acordado depois da chegada. Estava bastante cansado. Acho que só os ásanas que fiz dentro do avião para manter minha coluna sem dores até aquela hora, e só a empolgação da viagem para me manter de pé. Mesmo tendo deitado em cima do beliche e ter feito a triste constatação que o colchão era macio feito um travesseiro, dormi logo em seguida.
Depois conheci o mais engraçado dos que estavam no avião, o Vinícius, um mineiro muito figura, com um sotaque bem forte. Ele, coincidentemente, estava indo para Honolulu, mas de lá partiria para Maui, depois descobrimos que, na verdade, tinha que ir para o Kauai. Contou-me que queria ter ido trabalhar num cassino, como crupiê. Só que para isso, teria que ir um mês antes, para fazer um curso e aprender a lidar com as cartas, os jogos, os pagamentos. Como não tinha como vir mais cedo, a agência propôs que ele fosse para uma estação de esqui:
- Mas aí eu não aceitei este trem. Não gosto de frio, uai. Queria ir pra praia, ver as meninas, pegar um sol. Daí, me mandara para o havaí, mas eu não vou trabalhar no McDonald`s, não gosto daquela comida. Vou ficar só uma semana e depois vou arranjar outra coisa.
Dei muita risada com ele, nas poucas horas que estive ao seu lado. Ele ainda me disse que tinha comprado a passagem até o Kauai só para um dia depois da sua chegada em Oahu e, como não tinha onde ficar, ia fazer uma balada até o amanhecer.
Durante todo o vôo entre Miami e Los Angeles, que durou mais de 5 horas, eu não consegui dormir. Toda vez que fechava os olhos pensava nas ilhas havaianas, nas ondas, em assistir todos meu ídolos surfando ao vivo ondas espetaculares. Aquilo me tirava o sono, nem conseguia ficar sentado muito tempo, ficava caminhando dentro do avião.
Quando chegamos em Los Angeles, eu e o Vinícius fomos comer alguma coisa, pois estávamos famintos. Infelizmente, descobrimos, da pior forma possível, que as companhias aéreas do Estados Unidos não servem comida nos trechos domésticos. Eles até tem algumas besteiras para comer, batata tipo Pringles, uma bolacha gigante e uma barra de chocolate, também gigante (rsrsrs), só que eles cobram por isso. E tanto eu, quanto o Vinícius, saímos de Miami com a barriga vazia, achando que íamos comer dentro do avião. Ou seja, ficamos na batata o tempo todo e chegamos em Los Angeles famintos. Comi um beanburger, um hamburger vegetariano feito de feijão, com um toque apimentado (o restaurante era mexicano), que era uma delícia. Está certo que aquilo gerou uma fermentação ingrata na minha barriga, mas valeu a pena.
Ainda em Los Angeles, liguei para meu irmão, que estava de aniversário. Ele estava um pouco triste por conta de uma ex-namorada, e aquilo me deixou preocupado até o dia seguinte, quando liguei novamente e ele pareceu-me bem mais feliz. Falei com A Clã, o Sandro e a Nai, lá na Unidade. É muito bom lembrar daquela casinha laranja, na Ramiro Barcelos, sempre me traz boas sensações.
De Los Angeles para Honolulu foram mais 5 horas e 40 minutos. Novamente eu não dormi e o tempo parecia querer atrasar ao máximo minha chegada. Toda hora que eu olhava o relógio, parecia que sempre faltavam duas horas e meia para chegar. Neste trecho o Vinícius desmaiou ao lado de uma velhinha e eu continue conversando bastante com a Majira, uma finlandesa que mora em Sorocaba há muitos anos. Ela e seu marido, Vicko, estavam indo fazer um cruzeiro que passa por todas as ilhas havaianas.
O marido dela era uma figura muito peculiar, falava com ela em finlandês e comigo num português de americano. Ele é uma mistura de Roberto Justus com Donald Trump, e quando comentei coma a Majira que ele era parecido com o Roberto Justus (achei melhor não dizer sobre o Donald Trump, ele poderia ficar chateado. Rsrsrs), ela disse:
- Ah, muita gente fala isso, mas ele se acha muito mais parecido com o Burt Lancaster.
Achei engraçado, mas dei muita risada internamente porque o Sandro tem uma história muito engraçada sobre este ator. Depois pergunte a ele.
Ainda neste trecho conheci um australiano, que estava vindo de Nova York e iria conhecer o Hawaii, mas que não surfava.
- Na verdade eu ando de skate.
- Ah, que legal. Você é profissional?
- É, mais ou menos, porque agora eu comecei a cantar, sabe. Então, larguei um pouco o skate.
- Sério?! E o que você canta?
- Jazz.
Daí ficamos conversando bastante sobre jazz, ele me indicou um cantor tão cool quanto Chet Baker, segundo ele. Falei-lhe sobre o João Gilberto, ele até já gravou uma versão de Garota de Ipanema e Corcovado, tudo em inglês, mas estava se esforçando para aprender as versões em inglês. Achei muito esquisito um skatista quase profissional virar cantor de jazz, mas foi interessante.
Quando faltavam uns 20 minutos para a chegada na ilha, eu não conseguia mais nem falar. Ficava rindo sozinho no meu banco, às vezes celebrava com os punhos fechadas, levantava os braços, dava risada, dizia “yes!” bem baixinho. O casal ao meu lado só ria, mas eu já tinha dito para eles que era um sonho antigo.
Foi emocionante ver as luzes da cidade lá embaixo, a cada instante eu estava mais próximo de pisar em Oahu e após a aterrisagem, eu era só sorriso.
Chegando lá desembarquei, peguei minhas pranchas, que já estavam separadas, minha mochila demorou muito para aparecer na esteira, aquilo foi me dando uma aflição porque já comecei a pensar que tinha sido extraviada. Depois, a mala não vinha nunca, e o Vinícius, que estava ao meu lado, não parecia nem um pouco preocupado com o fato de sua mala não aparecer:
- Daqui a pouco ela aparece aí, sô! - A mala dele foi a última a sair da esteira.
Sai do saguão de baggage claim, e fiquei na frente esperando pelo meu grande amigo Finha, que tinha ficado de ir me buscar. Demorou uns 20 minutos e nada dele aparecer. Todos os carros já tinham passado e levado seus amigos e nada do meu brother. Comecei a ficar com raiva da Aninha (rsrsrs), que toda vez que me ouvia flaando e combinando com o Finha sobre a chegada e o encontro no aeroporto, dizia a mesma frase:
- Ah, este Finha vai te deixar esperando. Ele não vai te encontrar.
- Pára, Aninha. – E ela dava risada.
Como estava com duas mochilas, uma mala e um capa enorme de pranchas, não estava muito fácil me locomover dali. Vendo dois caras com capas de pranchas próximos a mim, perguntei se não podiam olhar um pouco minha coisas para que eu entrasse lá no saguão para telefonar. Então, um deles tirou um celular do bolso e ofereceu-me para ligar. Aceitei de imediato, porque a ligação era local. Ele logo percebeu que eu era brasileiro e disse-me que é casado com uma paulista. Este mundo é mesmo muito pequeno, né!? Aqui no hawaii, no meio do aeroporto, o cara que pára do meu lado é casado com uma brasileira...
O Finha atendeu o telefone na minha segunda tentativa e disse-me que estava chegando. Logo ele apareceu, sempre com aquele largo sorriso no rosto. Nos abraçamos bastante, eu estava com saudade deste velho amigo:
- Porra, finalmente o De Nardi veio para o North Shore!
- Claro, meu, te falei que eu vinha. Só demorei um pouco.
À caminho do North Shore, que é considerada a parte rural da ilha, fiquei impressionado com o tamanho da Downtown de Homolulu. Um cidade gigante, uma super infra-estrutura, bem diferente do que eu imaginava. Nos meus sonhos, acho que só pensava nas ondas, não na cidade. Ou, como diriam os havaianos, só pensava na country, not in the town.
Logo que entrei no carro o Finha me disse:
- Magro, estou com doze pranchas aí para vender, você quer alguma?
- Cara, na verdade precisaria de uma, mas não vou ter grana pra isso.
- Que tamanho?
- Ah, uma 6’5” - Pranchas são medidas em pés e polegadas.
- Então você vai ter que comprar uma 6’7” que eu tenho.
- Só que eu não preciso de um 6’7”, preciso de uma 6’5”.
Ele sempre foi assim, negociador, desde os tempo de colégio, quando o conheci. Nunca o vi jogar alguma coisa fora, sempre dava um jeito de vender, trocar, negociar. Se pudesse, até as pilhas do seu inseparável walkman ele vendia pra alguém.
- Cara, mas o Cauê de repente vai querer, ele disse-me que estava vindo sem prancha pra cá.
No caminho, passamos por uma placa que aparece em muitos filmes e revistas de surf, que marca o início de Haleiwa, condado onde estão grande parte das ondas. Aquilo me fez acreditar um pouco mais que estava aqui. Mas adiante, avistei a grande torre que fica na frente da baía de Waimea, outro símbolo clássico do Hawaii. Fomos até o endereço do Júlio, dono da casa onde eu ia hospedar-me, e um dos caras mais calmos com quem já falei no telefone, que fica em Waimea, e assim que estacionamos o carro, o Bruno, outro amigo de longa data, estava saindo pela porta da frente. Ele pareceu bem feliz ao me ver:
- Pô, achei que você não vinha mais hoje. Estávamos aí nos questionando se o Luquinhas chegaria.
Eu tinha combinado com seu irmão, Cauê, de dividirmos o quarto na casa do Júlio. Os brothers Dalfovos, estão morando na Califórnia, e eu vinha mantendo contado com ele via e-mail, msn e skype, apesar de ter caído na sua caixa de mensagens todas as vezes que liguei. Estas tecnologias de hoje, facilitam muito nossas vidas e podemos manter contato com amigos e parentes em qualquer lugar do mundo, basta querer. Bom, a combinação havia dado certo, o Cau estava me esperando e logo me instalei no quartinho. É um beliche, com uma cama no chão, onde o Júlio ia dormir nesta noite, não conseguimos descobrir porque:
- Amanhã vou dormir lá na minha mulher – Disse-nos o dono da casa.
Ainda nesta noite, depois de largar minhas malas, fomos até a casa do Finha ver as tais das pranchas. No caminho ele foi dizendo-me onde estava cada onda, mas entre a avenida e a praia, tem um monte de casa, o que lembrou-me muito a praia da Maresias, então quando ele disse:
- E aqui fica Pipeline...
Perguntei se poderíamos estacionar para eu ver a praia. Havia muita alegria em mim por conhecer este local tão especial. Paramos o carro e caminhamos até a areia. Na real, não deu pra ver nada, mas fiquei feliz de qualquer forma.
Depois de vermos as pranchas, que o Finha apresentou cheio de vontade, o Cauê não pareceu interessado em nenhuma, voltamos para casa. Depois do merecido e demorado banho, ainda fiquei trocando uma idéia com o Júlio antes de dormir. No total foram 30 horas de viagem, desde o momento em que deixei Porto Alegre, sendo que destas dormi cerca de 6, e mais 5 horas acordado depois da chegada. Estava bastante cansado. Acho que só os ásanas que fiz dentro do avião para manter minha coluna sem dores até aquela hora, e só a empolgação da viagem para me manter de pé. Mesmo tendo deitado em cima do beliche e ter feito a triste constatação que o colchão era macio feito um travesseiro, dormi logo em seguida.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
As coisas começaram tensas...
As coisas começaram tensas, no caminho para o aeroporto, meu pai entrou numa avenida movimentada, em horário de tráfego intenso, a isso somou-se um blitz da polícia e o percurso que deveria durar cerca de um quarto de hora, transformou-se em agoniantes 45. Surgiu até uma tensão familiar, meu pai preocupadíssimo pelo trajeto errado, eu e minha mãe tínhamos dito a ele que fosse por uma via expressa, minha mãe tentato dissimular e tensão trocando de assunto e falando sobre os mais variados temos e eu olhando o relógio do celular a cada minuto. Cheguei no aeroporto no horário limite para se fazer o check-in.
Pouco antes de ser atendido, avise ao meu pai:
- Por favor, deixe que eu negocie o pagamento das pranchas.
Logo que coloquei as pranchas sob a balança, o balanceiro questionou:
- Quantas pranchas, senhor?
- Duas! – Respondi sem pestanejar.
- Posso abrir a capa para ver?
- Não.
Ele me olhou supreso:
- Quem sabe você abre também a minha mala para ver quantas camisas estou levando? – Meu pai se afastou.
Lembrei, então, que havia esquecido de colocar o cadeado, com o qual sempre fecho minha capa de pranchas, justamente para evitar este procedimento invasivo. Enquanto, os dois conversavam, a atendente parecia bem preocupada, tirei de minha mochila o cadeado, puxei as pranchas para fora da balança e tranquei a abertura sob o olhar incrédulo dos dois funcionários da Tam.
Pude, então, ouvi-lo cochicar Não libera as bagagens ainda. Fiquei ali, esperando não sabia bem pelo que, naquela humilhação típica pelos quais nos fazem passar as companhias aéreas toda vez que se quer surfar fora do país, parece até que somos castigados por isso. O rapaz digiriu-se até uma porta, de onde saiu depois de alguns instantes, veio até minha com uma ar de satisfação:
- Infelizmente, senhor, sem abrir a capa não poderemos embarcar com as pranchas. Eu posso liberar as malas, mas as pranchas ficam.
- Então o vôo vai atrasar.
- Um vôo não fica no solo por causa de um passageiro.
- Bom, meu amigo, eu não vou viajar de Tam, meu vôo é pela Americam Airlines, como vou pagar para vocês levarem minhas pranchas se a American adota outra política para este tipo de bagagem?
- Como assim?
- Bom, eles me informaram que posso levar um volume de até 32kg e só pago U$85,00. Então porque você quer abrir minha capa se a Americam se importa apenas com o peso?
- Olha, senhor, este é o procedimento da Tam...
- Então me chame o teu gerente que quero falar com ele.
O Ismael, este era o nome dele, dirigiu-se a um colega que estava dois guichês ao lado, conversou um pouco e voltou:
- É, realmente, vamos ter que abrir a capa.
Nisso, chegou uma outra atendente, de nome Alessandra:
- Como posso ajuda-lo senhor?
- Bom, é que o Ismael quer abrir minha capa pranchas, mas eu não vou viajar pela Tam, vou viajar pela American...
- Não estou entendendo, senhor.
- É que a American cobra pelo volume, se não passar de 32kg, cobram apenas U$85,00.
- Ah, então vou ligar para a American, ok?
- Por favor.
Depois de alguns momentos ela voltou:
- Realmente, eles cobram por pranchas. Será cobrado U$75,00 cada peça, vamos ter que abrir a capa.
- Mas a Central de Atendimento me disse outra coisa!
- Bom, se você quiser ligar, sinta-se à vontade.
- Eu quero.
- Então, dirija-se à nossa loja e fale com a Cler, ela ligará diretamente para eles.
Quando sai do guichê de check-in, meu pais vieram apressados falar comigo:
- O que foi, meu filho?
- Nada, mãe, vou ligar pra American. – Meu pai me acompanhou.
Chegando lá, falei com a Rosicler, ela ligou via nextel para a American em São Paulo e este confirmaram que a taxa era de US$75,00 até Miami, mas até Honolulu, meu destino final, sairia por U$85, 00 por prancha, as coisas não estavam acontecendo à meu favor.
Pedi para falar com eles, tentei argumentar, dizer que tinha falado pelo telefone e que haviam me passado outra condição, mas ela argumentou que no site está o valor fixado pela companhia e não poderia fazer nada. Ao meu lado meu pai apavorado perguntou:
- Oitenta e cinco dólares? Por cada prancha?
Apenas ele, minha mãe e talvez o Ismael, sabiam que eu tinha 4 pranchas naquela capa. Rosicler parecia feliz, enquanto sorria me vendo sair indignado saindo da loja, apensa deixei o telefone em cima do balcão, mas nem consegui agradecer.
Voltei ao balcão do check-in, a esta altura vazio porque já estava na hora do embarque. Disse à Alessandra:
- Pois é, terei que pagar U$85,00 por prancha.
- Bom, então você vai ter que nos dizer quantas pranchas tem aqui.
- São duas, eu já disse.
- Tá, vou deixar por duas, mas se eles quiserem abrir em São Paulo você vai ter que pagar de novo.
Nem respondi, mal podia conter minha alegria. Tinha pensado em, se fosse obrigado a abrir a capa, deixar duas pranchas com meus pais e levar apenas duas. Porém, calculando bem, não conseguiria comprar pranchas por U$85,00, portanto usei este raciocínio para tentar me consolar caso tivesse que arcar com U$340,00 só para despachar as pranchas.
Voltei à loja da Tam, a Rosicler me recebeu, pegou maus cartão, fez todo procedimento de cobrança das taxas e ainda comentou:
- Não te liberaram deste castigo, né?!
Sorri, perdi R$299 e alguns centavos, mas ganhei 4 pranchas lá no hawaii. O maior stress da viagem havia passado, agora poderia curtir mais tranqüilo.
Peguei os bilhetes de embarque com a Alessandra, acho que a única funcionária da Tam que me tratou bem até hoje, e fui correndo para a sala de embarque.
Beijei e abracei bastante meus pais, minhas mãe começou a mexer na bolsa e meu pai logo bravejou:
- O que você vai fazer, Jaqueline?
- Pára, Sérgio, eu quero tirar uma foto.
Ela adora tirar fotos nos momentos mais inesperados. Às vezes, quando meu irmão vem visitar-nos em Porto Alegre, ela tira fotos dele logo quando este acorda.
Tiramos algumas fotos juntos, minha mãe se achou feia, mas depois disse que estava bom, e em seguida o vi indo embora enquanto entrava na sala de embarque. O vôo estava atrasado e suspeitei que tinha ido, em grande parte, por causa de um sujeitinho que queria mandar pranchas para Honolulu.
Em São Paulo fiz um rápido check-in na American, depois de uma moça me fazer perguntas bem peculiares sobre a segurança:
- Todos os bens que você carrega em suas bagagens são seus? Quando você fez a sua mala? Quem fez sua mala? Alguém estranho teve acesso à sua mala depois disso? Algum material eletrônico? Este material foi adquirido onde e quando?
Fiz a besteira de dizer a ela sobre a filmadora que o Flávio me emprestou:
- Ah, tem uma filmadora que não é minha, peguei emprestada de um amigo, mas ela é novinha, estava na caixa.
- Então, você nem tirou da caixa?
- Não, eu quis dizer que ela nunca foi usada, é bem nova, mas esta fora da caixa.
- E há quanto tempo você conhece esta pessoa que te emprestou a filmadora?
- Uns 4 anos?
- Em que circunstância esta filmadora lhe foi entregue?
- Como assim?
- Onde ela lhe foi entregue?
- Ah, na minha escola. Tenho uma escola de Yôga.
- Entendi. E você se sente seguro com este equipamento?
- Sim.
- Bom, estou lhe dizendo tudo isso porque já aconteceu de pessoas estarem portando narcóticos e explosivos sem saberem. Agora, pode fazer seu check-in.
Saindo dali, fui comer alguma coisa, entrei na sala de embarque e no corredor que leva ao avião, mais uma precaução para a segurança. Algumas pessoas interrogavam os passageiros:
- A sua bagagem de mão esteve com você o tempo todo? Alguém lhe deu alguma coisa para você trazer para dentro do avião?
Acho importante esta preocupação com a segurança, contra os atentados e etc. Mas são questões tão ingênuas que chega a dar pena nos funcionários que tem que fazer este trabalho. Como se uma pessoa mal intencionada fosse entregar-se ali, na entrada do avião.
No vôo sentei ao lado de uma senhora canadense chamada Gisele, mas com a mesma pronúncia que os Beatles usaram em sua música quando cantavam “Michele, mi belle...”. Uma senhora muito simpática, cheia de preocupações com o meio-ambiente. Ela trabalha com vitrais, é uma artista. Conversamos bastante, e pude praticar um pouco meu inglês. Inclusive solicite que me corrigisse quando falasse algo errado. Aprendi coisas novas e soube que ela esteve no Brasil para o turismo. Foi ao Rio de Janeiro, adorou Paraty e Ubatuba, achou Itajaí feio e São Paulo muit industrial. Ainda lamentou o fato de o povo brasileiro falar muito pouco inglês, pois isso dificultou muito a passagem de seu grupo pelo país, já que somente alguns arranhavam algumas palavras em espanhol.
Bom, neste exato momento estou no Miami International Airport, aguardando o vôo que vai me levar até Honolulu...
No momento em que escrevia as linhas acima me dei conta de que estava atrasado para o embarque, como o tempo passa rápido enquanto estamos a fazer nada. A verdade é que fechei de imediato o computador e saí correndo para o embarque. Chegando no local indicado, há um procedimento de raio-x um pouco mais elaborado que o do Brasil. Todos devem retirar os sapatos, e há um espécie de sorteio, onde os felizardos passam por um aparelho mais elaborado e que toma um tempo maior. Por sorte, tive que apenas descalçar os sapatos, tirar o computador da mochila e passar o mais rápido, direto para o portão de embarque. O vôo iria até Los Angeles, e somente depois para Honolulu.
Pouco antes de ser atendido, avise ao meu pai:
- Por favor, deixe que eu negocie o pagamento das pranchas.
Logo que coloquei as pranchas sob a balança, o balanceiro questionou:
- Quantas pranchas, senhor?
- Duas! – Respondi sem pestanejar.
- Posso abrir a capa para ver?
- Não.
Ele me olhou supreso:
- Quem sabe você abre também a minha mala para ver quantas camisas estou levando? – Meu pai se afastou.
Lembrei, então, que havia esquecido de colocar o cadeado, com o qual sempre fecho minha capa de pranchas, justamente para evitar este procedimento invasivo. Enquanto, os dois conversavam, a atendente parecia bem preocupada, tirei de minha mochila o cadeado, puxei as pranchas para fora da balança e tranquei a abertura sob o olhar incrédulo dos dois funcionários da Tam.
Pude, então, ouvi-lo cochicar Não libera as bagagens ainda. Fiquei ali, esperando não sabia bem pelo que, naquela humilhação típica pelos quais nos fazem passar as companhias aéreas toda vez que se quer surfar fora do país, parece até que somos castigados por isso. O rapaz digiriu-se até uma porta, de onde saiu depois de alguns instantes, veio até minha com uma ar de satisfação:
- Infelizmente, senhor, sem abrir a capa não poderemos embarcar com as pranchas. Eu posso liberar as malas, mas as pranchas ficam.
- Então o vôo vai atrasar.
- Um vôo não fica no solo por causa de um passageiro.
- Bom, meu amigo, eu não vou viajar de Tam, meu vôo é pela Americam Airlines, como vou pagar para vocês levarem minhas pranchas se a American adota outra política para este tipo de bagagem?
- Como assim?
- Bom, eles me informaram que posso levar um volume de até 32kg e só pago U$85,00. Então porque você quer abrir minha capa se a Americam se importa apenas com o peso?
- Olha, senhor, este é o procedimento da Tam...
- Então me chame o teu gerente que quero falar com ele.
O Ismael, este era o nome dele, dirigiu-se a um colega que estava dois guichês ao lado, conversou um pouco e voltou:
- É, realmente, vamos ter que abrir a capa.
Nisso, chegou uma outra atendente, de nome Alessandra:
- Como posso ajuda-lo senhor?
- Bom, é que o Ismael quer abrir minha capa pranchas, mas eu não vou viajar pela Tam, vou viajar pela American...
- Não estou entendendo, senhor.
- É que a American cobra pelo volume, se não passar de 32kg, cobram apenas U$85,00.
- Ah, então vou ligar para a American, ok?
- Por favor.
Depois de alguns momentos ela voltou:
- Realmente, eles cobram por pranchas. Será cobrado U$75,00 cada peça, vamos ter que abrir a capa.
- Mas a Central de Atendimento me disse outra coisa!
- Bom, se você quiser ligar, sinta-se à vontade.
- Eu quero.
- Então, dirija-se à nossa loja e fale com a Cler, ela ligará diretamente para eles.
Quando sai do guichê de check-in, meu pais vieram apressados falar comigo:
- O que foi, meu filho?
- Nada, mãe, vou ligar pra American. – Meu pai me acompanhou.
Chegando lá, falei com a Rosicler, ela ligou via nextel para a American em São Paulo e este confirmaram que a taxa era de US$75,00 até Miami, mas até Honolulu, meu destino final, sairia por U$85, 00 por prancha, as coisas não estavam acontecendo à meu favor.
Pedi para falar com eles, tentei argumentar, dizer que tinha falado pelo telefone e que haviam me passado outra condição, mas ela argumentou que no site está o valor fixado pela companhia e não poderia fazer nada. Ao meu lado meu pai apavorado perguntou:
- Oitenta e cinco dólares? Por cada prancha?
Apenas ele, minha mãe e talvez o Ismael, sabiam que eu tinha 4 pranchas naquela capa. Rosicler parecia feliz, enquanto sorria me vendo sair indignado saindo da loja, apensa deixei o telefone em cima do balcão, mas nem consegui agradecer.
Voltei ao balcão do check-in, a esta altura vazio porque já estava na hora do embarque. Disse à Alessandra:
- Pois é, terei que pagar U$85,00 por prancha.
- Bom, então você vai ter que nos dizer quantas pranchas tem aqui.
- São duas, eu já disse.
- Tá, vou deixar por duas, mas se eles quiserem abrir em São Paulo você vai ter que pagar de novo.
Nem respondi, mal podia conter minha alegria. Tinha pensado em, se fosse obrigado a abrir a capa, deixar duas pranchas com meus pais e levar apenas duas. Porém, calculando bem, não conseguiria comprar pranchas por U$85,00, portanto usei este raciocínio para tentar me consolar caso tivesse que arcar com U$340,00 só para despachar as pranchas.
Voltei à loja da Tam, a Rosicler me recebeu, pegou maus cartão, fez todo procedimento de cobrança das taxas e ainda comentou:
- Não te liberaram deste castigo, né?!
Sorri, perdi R$299 e alguns centavos, mas ganhei 4 pranchas lá no hawaii. O maior stress da viagem havia passado, agora poderia curtir mais tranqüilo.
Peguei os bilhetes de embarque com a Alessandra, acho que a única funcionária da Tam que me tratou bem até hoje, e fui correndo para a sala de embarque.
Beijei e abracei bastante meus pais, minhas mãe começou a mexer na bolsa e meu pai logo bravejou:
- O que você vai fazer, Jaqueline?
- Pára, Sérgio, eu quero tirar uma foto.
Ela adora tirar fotos nos momentos mais inesperados. Às vezes, quando meu irmão vem visitar-nos em Porto Alegre, ela tira fotos dele logo quando este acorda.
Tiramos algumas fotos juntos, minha mãe se achou feia, mas depois disse que estava bom, e em seguida o vi indo embora enquanto entrava na sala de embarque. O vôo estava atrasado e suspeitei que tinha ido, em grande parte, por causa de um sujeitinho que queria mandar pranchas para Honolulu.
Em São Paulo fiz um rápido check-in na American, depois de uma moça me fazer perguntas bem peculiares sobre a segurança:
- Todos os bens que você carrega em suas bagagens são seus? Quando você fez a sua mala? Quem fez sua mala? Alguém estranho teve acesso à sua mala depois disso? Algum material eletrônico? Este material foi adquirido onde e quando?
Fiz a besteira de dizer a ela sobre a filmadora que o Flávio me emprestou:
- Ah, tem uma filmadora que não é minha, peguei emprestada de um amigo, mas ela é novinha, estava na caixa.
- Então, você nem tirou da caixa?
- Não, eu quis dizer que ela nunca foi usada, é bem nova, mas esta fora da caixa.
- E há quanto tempo você conhece esta pessoa que te emprestou a filmadora?
- Uns 4 anos?
- Em que circunstância esta filmadora lhe foi entregue?
- Como assim?
- Onde ela lhe foi entregue?
- Ah, na minha escola. Tenho uma escola de Yôga.
- Entendi. E você se sente seguro com este equipamento?
- Sim.
- Bom, estou lhe dizendo tudo isso porque já aconteceu de pessoas estarem portando narcóticos e explosivos sem saberem. Agora, pode fazer seu check-in.
Saindo dali, fui comer alguma coisa, entrei na sala de embarque e no corredor que leva ao avião, mais uma precaução para a segurança. Algumas pessoas interrogavam os passageiros:
- A sua bagagem de mão esteve com você o tempo todo? Alguém lhe deu alguma coisa para você trazer para dentro do avião?
Acho importante esta preocupação com a segurança, contra os atentados e etc. Mas são questões tão ingênuas que chega a dar pena nos funcionários que tem que fazer este trabalho. Como se uma pessoa mal intencionada fosse entregar-se ali, na entrada do avião.
No vôo sentei ao lado de uma senhora canadense chamada Gisele, mas com a mesma pronúncia que os Beatles usaram em sua música quando cantavam “Michele, mi belle...”. Uma senhora muito simpática, cheia de preocupações com o meio-ambiente. Ela trabalha com vitrais, é uma artista. Conversamos bastante, e pude praticar um pouco meu inglês. Inclusive solicite que me corrigisse quando falasse algo errado. Aprendi coisas novas e soube que ela esteve no Brasil para o turismo. Foi ao Rio de Janeiro, adorou Paraty e Ubatuba, achou Itajaí feio e São Paulo muit industrial. Ainda lamentou o fato de o povo brasileiro falar muito pouco inglês, pois isso dificultou muito a passagem de seu grupo pelo país, já que somente alguns arranhavam algumas palavras em espanhol.
Bom, neste exato momento estou no Miami International Airport, aguardando o vôo que vai me levar até Honolulu...
No momento em que escrevia as linhas acima me dei conta de que estava atrasado para o embarque, como o tempo passa rápido enquanto estamos a fazer nada. A verdade é que fechei de imediato o computador e saí correndo para o embarque. Chegando no local indicado, há um procedimento de raio-x um pouco mais elaborado que o do Brasil. Todos devem retirar os sapatos, e há um espécie de sorteio, onde os felizardos passam por um aparelho mais elaborado e que toma um tempo maior. Por sorte, tive que apenas descalçar os sapatos, tirar o computador da mochila e passar o mais rápido, direto para o portão de embarque. O vôo iria até Los Angeles, e somente depois para Honolulu.
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
Tudo começou...
Bom, tudo começou com uma conversa via msn com meu tio... não, na verdade, tudo começou há muito mais tempo...
Desde que me conheço por gente dentro do surf, ouço falar das ilhas havaianas, deste lugar distante perdido no meio de um bravo oceano, onde as ondas ultrapassam o tamanho de casas e postes. Lembro-me que achava incrível o fato de ter um tio que já tinha conhecido o Hawaii e todas aquelas ondas de nomes estranhos, Haleiwa, Waimea, Off the Wall, Pipeline e outras. Tinha até um revista em que este ele aparecia, não surfando, só cumprimentando um amigo...
O fato é que cresci com aquilo na minha cabeça de surfista, "ah, o hawaii..." e toda vez que eu ficava sabendo de alguém que tinha ido, metralhava-o de perguntas:
- Como é? Qual o tamanho das ondas? E os tubos? Você surfou Pipeline?
Dentre todas as ondas que já ouvi falar, nenhuma nunca me fascinou tanto quanto Pipeline. Um onda mítica onde se forjaram e destruiram muitas carreiras. No início, apenas ouvia-se falar dela, diziam que era um tubo enorme, que cabia uma casa dentro. Depois comecei a vê-la nas revistas, passava horas folhando e contemplando aquelas imagens. Aqueles lindo tubos surfados por grandes mestres desta arte de deslizar sobre as ondas.
Algo que nunca deixei de acompanhar era o Pipeline Master, o campeonato mais incrível de todos. Por isso, a cada ano, em dezembro, eu ficava ansioso por saber quem tinha ganhado, como tinham se saído os brasileiros, como estava o mar, algum outro detalhe que pudesse descobrir.
Vi imagens incríveis de Tom Carrol vencendo a final contra Derek Ho. Kelly Slater cumprimentando seu amigo Rob Machado, quando este saia de um tubão, em plena bateria. Depois veio, Jake Patterson, Andy e Bruce Irons e Jamie O`Brien.
Obviamente, com a utilização da internet para transmitir os campeonatos, tudo ficou mais fácil. Não muito antigamente, tinhamos que esperar uns dois meses para receber a revista, e, dentro de nossas imaginações, juntavamos as fotos com o texto, criando o cenário daqueles verdadeiros espetáculos que acontecem há décadas na ilha de Oahu.
Depois de tudo isso, meu tio me chamou no msn, no meio deste ano, convidando-me para ir ao Hawaii com meu primo surfista, Icaro Ronchi. Ele pagaria a hospedagem e o aluguel do carro, em troca da responsabilidade pelo moleque.
Aceitei o desafio de imediato, mas achei que 45 dias fora do meu trabalho seria tempo demais. As coisas andaram rápido desde lá, visto, entrevista, Consulado, documentos, Passaporte, dólares, cartão de crédito, hospedagem, datas, promoções e hoje estou aqui, na véspera da viagem, inaugurando este blog para relatar esta trip dos sonhos.
Estou indo um pouco antes do meu primo e vou ficar um pouco mais de 45 dias, mas é para realizar dois sonhos de uma só vez: conhecer o Hawaii e assistir ao PipeMaster, cuja janela para realização começou no dia 8 e vai até o dia 20. Para quem não sabe, a organização espera pelas melhores condições para colocar os competidores na água, e até agora ainda ão rolou nada. Espero que consiga chegar a tempo de ver as baterias desde o início.
Relatarei nesta página um pouco do dia-a-dia da viagem, mas quero, principalmente, colocar imagem desta ilha tão linda e de ondas tão perfeitas, Oahu.
The trip is on, man. There's no way out!
Desde que me conheço por gente dentro do surf, ouço falar das ilhas havaianas, deste lugar distante perdido no meio de um bravo oceano, onde as ondas ultrapassam o tamanho de casas e postes. Lembro-me que achava incrível o fato de ter um tio que já tinha conhecido o Hawaii e todas aquelas ondas de nomes estranhos, Haleiwa, Waimea, Off the Wall, Pipeline e outras. Tinha até um revista em que este ele aparecia, não surfando, só cumprimentando um amigo...
O fato é que cresci com aquilo na minha cabeça de surfista, "ah, o hawaii..." e toda vez que eu ficava sabendo de alguém que tinha ido, metralhava-o de perguntas:
- Como é? Qual o tamanho das ondas? E os tubos? Você surfou Pipeline?
Dentre todas as ondas que já ouvi falar, nenhuma nunca me fascinou tanto quanto Pipeline. Um onda mítica onde se forjaram e destruiram muitas carreiras. No início, apenas ouvia-se falar dela, diziam que era um tubo enorme, que cabia uma casa dentro. Depois comecei a vê-la nas revistas, passava horas folhando e contemplando aquelas imagens. Aqueles lindo tubos surfados por grandes mestres desta arte de deslizar sobre as ondas.
Algo que nunca deixei de acompanhar era o Pipeline Master, o campeonato mais incrível de todos. Por isso, a cada ano, em dezembro, eu ficava ansioso por saber quem tinha ganhado, como tinham se saído os brasileiros, como estava o mar, algum outro detalhe que pudesse descobrir.
Vi imagens incríveis de Tom Carrol vencendo a final contra Derek Ho. Kelly Slater cumprimentando seu amigo Rob Machado, quando este saia de um tubão, em plena bateria. Depois veio, Jake Patterson, Andy e Bruce Irons e Jamie O`Brien.
Obviamente, com a utilização da internet para transmitir os campeonatos, tudo ficou mais fácil. Não muito antigamente, tinhamos que esperar uns dois meses para receber a revista, e, dentro de nossas imaginações, juntavamos as fotos com o texto, criando o cenário daqueles verdadeiros espetáculos que acontecem há décadas na ilha de Oahu.
Depois de tudo isso, meu tio me chamou no msn, no meio deste ano, convidando-me para ir ao Hawaii com meu primo surfista, Icaro Ronchi. Ele pagaria a hospedagem e o aluguel do carro, em troca da responsabilidade pelo moleque.
Aceitei o desafio de imediato, mas achei que 45 dias fora do meu trabalho seria tempo demais. As coisas andaram rápido desde lá, visto, entrevista, Consulado, documentos, Passaporte, dólares, cartão de crédito, hospedagem, datas, promoções e hoje estou aqui, na véspera da viagem, inaugurando este blog para relatar esta trip dos sonhos.
Estou indo um pouco antes do meu primo e vou ficar um pouco mais de 45 dias, mas é para realizar dois sonhos de uma só vez: conhecer o Hawaii e assistir ao PipeMaster, cuja janela para realização começou no dia 8 e vai até o dia 20. Para quem não sabe, a organização espera pelas melhores condições para colocar os competidores na água, e até agora ainda ão rolou nada. Espero que consiga chegar a tempo de ver as baterias desde o início.
Relatarei nesta página um pouco do dia-a-dia da viagem, mas quero, principalmente, colocar imagem desta ilha tão linda e de ondas tão perfeitas, Oahu.
The trip is on, man. There's no way out!
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